MENU

Entrevista com Rodrigo Alvarez

postado em

Reconhecido como escritor e jornalista, Rodrigo Alvarez construiu uma longa carreira como repórter e correspondente internacional na TV Globo, cobrindo alguns dos momentos mais importantes da história mundial contemporânea. Essas vivências foram fundamentais para sua formação como escritor. Nesta entrevista, ele conta como despertou para a profissão, de onde surgiu seu interesse por questões religiosas e o que o motivou a escrever Jesus – O homem mais amado da História.

 

 

Em que momento você decidiu-se pelo jornalismo? Foi a partir dela que decidiu se tornar escritor?

Aos 19 anos, no momento em que desisti da carreira de desenhista industrial (eu era péssimo), decidi que seria escritor. Eu tinha escrito muitos contos, poesias e letras de música, e sentia que as palavras eram meu lugar de conforto, meu grande prazer e aquilo que me instigava. Conclui que o jornalismo era o melhor caminho. Eu precisava conhecer o mundo para ter sobre o que escrever. Eu precisava me fazer adulto, conhecer pessoas, sofrer, viver alegrias, ter medo, me colocar na pele dos outros… só vivendo eu poderia escrever. E assim aconteceu. Depois de 13 anos como jornalista, em 2009, escrevi meu primeiro livro (No país de Obama). Mas ainda não era aquilo… eu não queria ser escritor de memórias de um jornalista. Eu queria escrever literatura. Então, em 2014 veio a primeira experiência com a não-ficção literária, no livro Aparecida. O livro foi muito bem recebido e eu me senti à vontade para continuar na temática. Jesus, o homem mais amado da História é o auge desse processo, não só pelo personagem, que de fato é o mais importante, mas pela própria escrita, que agora chegou ao ponto que eu sonhava quando comecei.

 

 

Quais foram os momentos mais marcantes de sua carreira como jornalista?

O primeiro episódio marcante foi quando testemunhei o naufrágio de uma plataforma em alto-mar. Poucas pessoas viram a P36 da Petrobras afundar, mas só uma câmera registrou. Naquele dia, em 2001, começou de fato minha carreira (ainda que eu trabalhasse com jornalismo desde 1996). Outros episódios marcantes: as eleições que fizeram de Obama o primeiro presidente negro dos Estados Unidos; o terremoto do Haiti (tema do meu segundo livro); a procura por tornados no meio-oeste americano; a guerra de Gaza em 2014, quando minha vida ficou em risco algumas vezes; e recentemente a crise dos refugiados. Acompanhei por muito tempo o drama das famílias de refugiados, especialmente as que vinham da Síria. Fiz com eles o trajeto entre o Oriente Médio e a Alemanha que os recebia de braços abertos.

 

O que despertou seu desejo de escrever sobre temas do universo religioso?

Comecei a pesquisa em 2011, quando quis escrever sobre um fenômeno religioso brasileiro, mas não pelo ponto de vista religioso e, sim, cultural. Ao escrever Aparecida eu tive a oportunidade de contar uma parte desconhecida da história do Brasil. Jesus, o homem mais amado da História é meu quinto livro sobre temas religiosos, e certamente o mais importante deles. A história de Jesus e do cristianismo é tão imensa que já tenho o roteiro preparado para outros livros – continuando a história, passando pelo que aconteceu depois da morte de Jesus e percorrendo 2 mil anos.

 

Você sempre quis escrever sobre Jesus?

Quando eu era menino, com 7 ou 8 anos, havia no colégio Santo Agostinho, no Rio de Janeiro, um frei que sempre nos contava as parábolas de Jesus. Eram, para mim, histórias incríveis, que me transportavam a outro tempo e me deixavam curioso para entender melhor “quem era aquele homem”. Depois disso, em viagens pelo mundo, visitei igrejas e lugares sagrados (onde sempre me senti muito bem) querendo entender como aquilo tudo havia começado. Ao escrever Aparecida, em 2011, tive pela primeira vez a oportunidade de mergulhar numa pesquisa profunda sobre a temática. E um universo se abriu à minha frente. Desde então, não parei de pesquisar sobre Jesus e a história do cristianismo. Queria também escrever uma história que fosse tão boa de ler (ou ouvir) quanto as que frei Heliodoro me contava na escola. Enfim, queria levar o leitor o mais perto possível da história verdadeira de Jesus.

 

Quantas cidades você percorreu para escrever o livro?

São incontáveis as cidades, dezenas. Percorri muitas vezes a Judeia e a Samaria (atual Cirsjordânia, Palestina) e a Galileia. Estive também na Jordânia, no lugar mais provável do batismo de Jesus. Passei muito tempo na região do mar Morto e, sem dúvida nenhuma, o mais importante foi ter vivido quase quatro anos em Jerusalém. A cidade mudou minha vida em todos os sentidos, mas, especialmente, em relação à carreira como escritor. Ao viver por quase quatro anos num lugar em que respiramos história, pude me aprofundar na temática cristã de uma forma que, eu penso, seria impossível sem conhecer cada canto, cada montanha, cada pedra e até as árvores milenares nos lugares onde Jesus e seus seguidores viveram seus dias mais importantes. Ao escrever Jesus, por muitas vezes fechei os olhos para caminhar pelos desertos e pelas águas com ele. Espero ter transmitido isso aos leitores.

 

 

Você se considera uma pessoa religiosa?

Vivo o cristianismo de maneira muito intensa em seu aspecto cultural, minha formação é católica, mas não sou religioso. Medito sobre as questões da vida e da morte, mas não rezo. Não tenho nenhuma doutrina que guie minha maneira de pensar. Olho para o mundo com o interesse de um investigador e a paixão de um ser humano que ama a vida, que ama os seres humanos. Prefiro me definir como um espírito livre. Livre para pensar, refletir e entender a humanidade com as ferramentas intelectuais que temos hoje à nossa disposição.

 

Em sua opinião, qual é a importância de Jesus para a humanidade?

O pensamento dele, ou o pensamento que ele apreendeu, reformulou e ensinou, redefiniu a maneira como nos comportamos diante dos outros seres humanos. Não há ninguém que possa discordar que foi o homem mais importante da História. E eu venho neste livro afirmar que é até hoje o mais amado da História. Ele ensinou o amor ao próximo (ainda que tenha tido seus momentos de impaciência) e recebeu da humanidade um amor como, talvez, jamais veremos.

 

Você pesquisa incessantemente sobre religião e cristianismo. Considera que tem muito ainda a escrever?

Eu poderia passar a vida inteira escrevendo obre religião e encontraria temas instigantes. Penso que vivemos numa era de muita informação e pouco conhecimento. Muita informação banal, tola, conversas vazias e notícias falsas espalhada pelos celulares, ocupando as mentes humanas e tirando de grande parte das pessoas a capacidade de contemplar e refletir. Penso que os livros ainda são o lugar de imersão, um refúgio que nos leva a pensar, contemplar e refletir sobre quem somos, por que chegamos até aqui e outras questões que podem ser filosóficas, psicológicas, sociológicas, antropológicas. Seja nos livros de história ou nas ficções, quero continuar experimentando esse universo das palavras e da imaginação, e compartilhando essa experiência com os leitores. Afinal, o livro só ganha vida quando alguém abre suas páginas.

 

Saiba mais sobre Rodrigo Alvarez e seu trabalho de escritor no site www.rodrigoalvarezescritor.com.br.