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6 fatos sobre a história adaptada pela Netflix na nova série ‘Unbelievable’

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Um dos lançamentos da Netflix mais aguardados de 2019, ainda sem data de estreia divulgada, é Unbelievable, minissérie em oito capítulos baseada na reportagem vencedora do Pulitzer – o maior prêmio do jornalismo mundial – “An unbelievable story of rape”, de 2016, assinada pelos jornalistas americanos Christian Miller e Ken Armstrong e em seguida ampliada pelos mesmos autores no aclamado livro Falsa acusação.

É uma história real cheia de reviravoltas, dúvidas, estigmas, mentiras e, acima de tudo, um profundo desejo de justiça. Além disso, lança no ar o grito de desespero das vítimas de estupro que costumam encontrar mais desconfiança, olhares e palavras de acusação do que dedicação profissional e empatia. Os autores acompanharam o trabalho incansável de duas detetives para colocar um estuprador em série na cadeia e dar voz às suas vítimas – fazendo também uma análise da maneira ultrajante como as mulheres são tratadas quando denunciam casos de violência sexual.

Listamos seis fatos sobre essa história – e toda a cultura de estupro diretamente ligada a ela – que, seguidos por trechos do livro, deixam claro por que é preciso ler Falsa acusação antes de assistir a Unbelievable.

1. Na cidade americana de Lynnwood, Washington, Marie, de 18 anos, disse ter sido estuprada por um homem que entrou armado com faca em seu apartamento, vendou seus olhos, amarrou suas mãos e a amordaçou.

“Marie deixou a sala de interrogatório e desceu a escada da delegacia acompanhada por um detetive e um sargento. Ela tinha parado de chorar. Lá embaixo, os policiais a entregaram para duas pessoas que a esperavam. Marie era membro de um programa de apoio para adolescentes que não estavam mais na idade de morar em lares adotivos temporários. Aquelas duas pessoas eram orientadoras do programa.

Uma delas falou:

– Você foi estuprada?

Fazia uma semana do dia em que Marie, uma garota de 18 anos com olhos castanho-claros, cabelo ondulado e aparelho nos dentes, havia denunciado ter sido estuprada por um desconhecido que entrou armado com uma faca em seu apartamento e vendou seus olhos, amarrou suas mãos e a amordaçou. Ao longo da semana, Marie havia repetido seu relato à polícia pelo menos cinco vezes. Ela dissera para eles: homem branco e magro, cerca de 1,70 metro de altura. Calça jeans. Casaco com capuz – cinza, ou talvez branco. Olhos possivelmente azuis.”

 

2. Após relatar o estupro, ela foi confrontada pelos policiais e voltou atrás – disse ter inventado tudo para chamar atenção.

“Mas a história não era sempre a mesma em seus relatos. A polícia tinha conversado com conhecidos de Marie que pareciam duvidar dela. E quando os policiais a confrontaram com essas dúvidas, ela vacilou e acabou voltando atrás, dizendo que tinha inventado tudo – porque a mãe adotiva havia parado de atender aos seus telefonemas, porque o namorado tinha decidido ser só seu amigo, porque ela não estava acostumada a ter que morar sozinha.

Porque ela queria chamar atenção.

Ela, então, detalhou sua história de vida para os detetives. Descreveu como foi criada por uns vinte pais e mães adotivos diferentes ao longo dos anos. Relatou que foi estuprada aos 7 anos de idade. Contou que se ver sozinha pela primeira vez na vida foi assustador. E que a história sobre o invasor que a estuprou acabou ‘tomando proporções que ela não esperava’.

Agora, Marie tinha acabado de testar o pouco de paciência que ainda restava naqueles policiais. Ela havia retornado à delegacia para desmentir o desmentido, afirmando que seu primeiro depoimento era de fato verdadeiro e que ela foi, sim, estuprada. Mas ao ser pressionada na sala de interrogatório ela voltou a ceder, confessando novamente que a história era falsa.

– Não. – Foi a resposta de Marie para os orientadores que a esperavam ao pé da escada. – Não. Não fui estuprada.”

3. Taxada de mentirosa, Marie foi humilhada publicamente e indiciada pela justiça.

“No estado de Washington e para além dele, a história de Marie foi transformada num argumento para a velha discussão sobre credibilidade e estupro.

As matérias que saíram na imprensa não citavam seu nome, mas seus conhecidos sabiam que era ela. Uma amiga da época de escola ligou para dizer: ‘Como você pôde mentir sobre uma coisa dessas?’ Era a mesma pergunta que os repórteres de TV queriam fazer. A mesma pergunta que Marie ouvia de todos os lados. Ela não respondeu à amiga. Apenas ouviu e depois desligou o telefone. Mais uma amizade desfeita. Marie havia emprestado seu laptop para outra amiga – um daqueles IBMs pretos antigos –, que agora se recusava a devolvê-lo. Quando Marie decidiu questioná-la, a amiga lhe disse: ‘Se você pode mentir, eu posso roubar.’ Essa mesma amiga – ou ex-amiga – ligava para fazer ameaças, dizendo que Marie devia morrer. As pessoas apontavam Marie como a razão pela qual ninguém acreditava nas verdadeiras vítimas de estupro. E a xingavam de vaca e piranha. (…)

O envelope chegou pelo correio no fim de agosto, menos de três semanas depois de ela ter feito a denúncia do estupro. Marie descobriu que estava sendo acusada de um crime. FALSA COMUNICAÇÃO DE CRIME, dizia a descrição do delito, com as quatro palavras grafadas à mão em maiúsculas. (…) Tratava-se de um delito grave, o grau mais alto de contravenção antes de um crime doloso. Caso fosse condenada, ela poderia pegar um ano de prisão.”

 

4. Dois anos mais tarde, enquanto investigam um estuprador em série, duas detetives descobrem uma conexão entre esses crimes e o caso de Marie.

“Galbraith recebeu um fax do setor de registros de Lynnwood. Ela deu uma olhada na folha de rosto – e logo voltou a olhar, fisgada por uma inscrição no pé da página. Lá embaixo, escritas à mão, estavam as últimas palavras com que esperava se deparar: ‘A vítima foi acusada de falsa comunicação de crime no caso daqui.’

Falsa comunicação de crime. A mulher da fotografia. ‘A vítima foi acusada.’ Galbraith ficou espantada com essas palavras.

Seu coração afundou dentro do peito. Em seguida, ela xingou em voz alta, tendo a noção exata de como aquela acusação estava errada.

Galbraith se deu conta, então, de que o que ela teria a fazer não era ajudar colegas investigadores a solucionarem um caso ativo. Sua missão seria notificá-los de um erro terrível, um dos piores que um detetive de polícia pode cometer na carreira. Ao examinar o histórico da investigação em Lynnwood – vendo o ponto em que as dúvidas começaram, a maneira como elas se alastraram e a forma como Marie cedera ao ser confrontada pelos detetives, chegando até mesmo a concordar com a proposta de assinar um acordo extrajudicial –, Galbraith mal pôde imaginar o sofrimento pelo qual a mulher da fotografia teve que passar.”

5. Há algo que se repete em grande parte dos casos de violência sexual: o desrespeito à vítima.

“Para Marie, a reparação chegou por meio de uma fotografia – uma imagem capturada e gravada pelo estuprador que comprovava a veracidade do relato feito pela moça. No caso de uma garota de 13 anos de White Bear Lake, Minnesota, foi preciso um vídeo. Em 2001, a menor denunciou que havia sido raptada e molestada sexualmente, e depois largada num shopping center. ‘Você nunca esteve nesse shopping. Não foi deixada lá’, um detetive de polícia disse a ela. Ele argumentou que havia examinado imagens das câmeras de segurança do shopping e que elas não davam respaldo ao relato da menina. ‘Você só sabe mentir e mentir e mentir’, ele lhe falou.

Mais de uma semana depois, os pais da garota examinaram por si mesmos as imagens das câmeras de segurança e descobriram trechos de vídeo que comprovavam que a filha estava mesmo dizendo a verdade.

Em Vallejo, na Califórnia, a fisioterapeuta Denise Huskins desapareceu da própria casa em 2015. Quando ela reapareceu, dois dias mais tarde, policiais se recusaram a acreditar no seu relato de que havia sido raptada e violentada, alegando que a narrativa estava parecida demais com a trama do best-seller Garota exemplar. A polícia declarou que a deníncia era falsa, e um tenente chegou a dizer que Huskins ‘devia um pedido de desculpa à sua comunidade’. Vários meses depois, os policiais descobriram que a história era verdadeira. Eles encontraram imagens em vídeo do estupro, junto com outras evidências. Um advogado formado em Harvard, que havia sido banido da Ordem, confessou ter raptado Huskins e acabou condenado a quarenta anos de prisão. Mas, mesmo depois disso, Huskins continuou sendo hostilizada na internet, recebendo mensagens como a de um homem que postou no Facebook: ‘Você vai para o inferno por causa da merda que fez… Vadia de merda.

Huskins, num post no seu próprio perfil da rede social, escreveu: ‘Tudo que eu fiz foi sobreviver, e acabei marginalizada por isso.'”

 

6. A história de Marie não é um caso isolado: a violência sexual ainda é comumente tratada com uma negligência que beira a hostilidade.

“A negligência que marca todos esses casos tem raízes que vem de longa data. Em seu livro de 1975, ‘Against our will: Men, women and rape’, Susan Brownmiller descreve a visita que fez a uma delegacia no Greenwich Village, em Nova York, para pesquisar as taxas de estupro registradas. O distrito, segundo lhe informaram, havia recebido 35 denúncias naquele mês e feito duas prisões. ‘Não me parece um número muito expressivo’, disse ela a um sargento. ‘Você quer saber de onde surgem essas denúncias? De prostitutas que não recebem seu pagamento’, foi a resposta que o sargento lhe deu. (…)

Paralelos mais recentes ao caso de Marie também não faltam, surgindo em coberturas da mídia e na literatura acadêmica nos anos que se seguiram à denúncia de estupro feita por ela. De 2009 a 2014, o Departamento de Polícia do Condado de Baltimore arquivou 34% das denúncias de estupro recebidas como sendo falsas ou carentes de embasamento. Essa porcentagem em si já seria um dado perturbador, mas é ainda mais chocante constatar como se chegou nisso: o departamento muitas vezes descartava as denúncias sem sequer ter seguido o protocolo básico de encarregar um detetive especializado em crimes sexuais de entrevistar a suposta vítima (…).”

Saiba mais sobre Falsa acusação e garanta seu exemplar.