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7 lições que podemos aprender com Hamlet, por Leandro Karnal

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Todo o mundo é um teatro, escreveu William Shakespeare, e homens e mulheres não passam de meros atores. Em O que aprendi com Hamlet, de Leandro Karnal, atores-leitores são convidados a um passeio pela própria consciência: a jornada de aprender com quem mais tem a ensinar no teatro do mundo – o criador de Hamlet. O livro revela as lições deixadas pela principal peça de William Shakespeare numa combinação entre a experiência de um homem do século XVI e outro do século XXI. Tendo lido e relido a obra muitas vezes, Karnal refletiu sobre as lições que seu protagonista, o príncipe melancólico da Dinamarca, deixou e, mesmo nesta era de selfies felizes, continua a deixar. Com a colaboração de Valderez Carneiro da Silva, tradutora e especialista em Shakespeare, o autor cruza as passagens da peça como uma espécie de coaching – uma curadoria de vida.

Destacamos aqui sete das muitas lições de vida que Hamlet nos ensina até hoje, complementadas com trechos do livro de Karnal. Afinal, nas palavras do autor, “o itinerário de viver é obrigatório até o fim, e Hamlet é uma
 companhia para ele.”

1. O governo é o fruto da sociedade que é governada. 

“Marcelo anuncia o que está na mente de Hamlet: há algo de podre no Reino da Dinamarca. A partir disso, Hamlet investigará as mazelas no seio da própria família. A consciência hamletiana tem paralelo com a atual democracia, com a consciência do que somos. E esse espelho é desagradável. A corrupção é um mal endêmico e é mais grave porque dialoga com a tolerância ética das instituições e com a nossa. Governos corruptos estão inseridos em práticas sociais que reforçam os comportamentos de desvio. Todos os países possuem corruptos e não existe uma sociedade formada apenas de anjos impolutos. Já houve quem apontasse o catolicismo como uma concepção de mundo tolerante com o desvio; mas a Rússia ortodoxa, a Índia, de maioria hindu, e países da península Arábica de maioria islâmica são notavelmente corruptos. Nos Estados Unidos protestantes, a crise de 2008 foi causada por uma imensa corrupção no sistema financeiro com aval do poder público. Da mesma forma, a China, país de múltiplas tradições religiosas, é bastante corrupta. Logo, o desvio não está na religião.

Combatê-la, tirar Cláudio do poder, é dever, claro. Mas fosse apenas isso, seria ótimo e Hamlet seria uma peça qualquer do início do século XVII. Shakespeare teria morrido pobre e esquecido. Na Itália, a Operação Mãos Limpas envolveu muita gente, entre juízes, poder público, polícia. Ao final dessa lavagem estrutural surgiu a eleição de Silvio Berlusconi, modelo de tudo aquilo que a Operação Mãos Limpas combatia. Então, como Hamlet aprenderá ao longo do texto, sou obrigado a uma certa melancolia prudente. Os seres humanos têm uma capacidade infinita de progresso e uma capacidade de autossabotagem quase épica.”

2. O bajulador é um espelho que só mostra o que queremos ver. 

“Ah! Os puxa-sacos e aproveitadores! O risco de gente aduladora é mais uma das coisas que podemos aprender com Hamlet. Na verdade, a lição é antiga. Paulo, em Romanos 16, já advertia que as palavras suaves e a bajulação enganam o coração dos incautos. Essa linha e Provérbios 29 (‘O homem que bajula seu próximo está apenas construindo uma armadilha para si mesmo’ parecem ter frequentado o coração de Shakespeare quando ele compôs Polônio. Ele viverá para bajular, viverá da bajulação e será vítima de suas próprias armadilhas. Meio século depois de Paulo, Plutarco escreveu um tratado inteiro sobre ‘Como distinguir um adulador de um amigo’. Nele, a lógica é moral: por conta de nossa vaidade, de nosso imenso ego (‘cada um de nós é o primeiro e o maior adulador de si próprio’), adoramos nos cercar de quem confirme as mais altas expectativas que temos de nós mesmos.

Amor-próprio, diz o grego latinizado, é salutar. Mas a diferença entre veneno e remédio é a dose. Se nos enamoramos de nós mesmos, atrairemos bajuladores como moscas são atraídas pela luz. Desejando confirmar nossas realizações, tornamos os Polônios indispensáveis, pois eles confirmam nossos dotes. O puxa-saco vive bem como rêmora. Não precisa de luz própria. Mas nós precisamos desse parasita como ar para viver. Deixamos, em nosso delírio envaidecido, de pensar por nós mesmos. Transformamos o bajulador num espelho que só mostra o que queremos ver. Nossos defeitos são ocultados, nossos vícios minimizados e nossos feitos e virtudes são ampliados, criando uma imagem distorcida, com fundo de verdade. Logo, convincente: Cláudio merece Polônio. Polônio serviria a Cláudio, Hamlet ou qualquer outro no poder.”

3. Quanto mais escrevo “kkk” no Facebook, mais estou triste, pois preciso que o mundo “curta” a vida que acho insuportável. 

“Para atingir a consciência hamletiana, é preciso apenas dizer o que as coisas são, como elas são. Por isso Hamlet se finge de louco no mundo que é um palco, onde a consciência é enganada. As fotos de revistas ou o Botox em rostos que não querem envelhecer, por exemplo, são enganos da consciência: não queremos ver o rosto da Medusa. Quanto mais escrevo ‘kkk’ no Facebook, mais estou triste, pois preciso que o mundo ‘curta’ a vida que acho insuportável. Da mesma forma, precisamos de hospício para imaginar que, estando fora, não somos loucos. Assim o fez Simão Bacamarte, do genial Machado, assim fazemos nós todos os dias. A loucura fingida, a loucura como método de Hamlet, nos diz que só interpretamos cenas, etiquetas e formalidades porque não aguentamos saber que fazemos todos parte de um teatro. Tente descobrir vagamente quem você é. Você não será feliz. Mas sua consciência o impedirá de ser vazio, e você não precisará postar o tempo todo na internet.”

4. Quase ninguém é o que parece ser. 

“Hamlet imita Maquiavel e Jesus em outro diapasão. Maquiavel diz que o político deve parecer e não ser, pois manter a palavra empenhada, por exemplo, pode se tornar prejudicial aos interesses do Estado. O aspecto externo deve ser dominado para que oculte a disposição íntima. Jesus faz uma leitura negativa da atitude que o florentino defenderia mais tarde. O fariseu, diz o Nazareno, é aquele que exibe uma piedade teatral. Maquiavel imagina ser inevitável, quase um dado da natureza humana, separar o ser do parecer. Jesus classifica como erro ser um ‘sepulcro caiado de branco” e viver para impressionar a opinião pública mais do que perceber a sinceridade do próprio coração. A corte de Elsinore é uma mistura de fariseus com maquiavélicos. Quase ninguém é o que parece ser, inclusive Hamlet, pois não está louco.No sentido negativo da expressão, o mundo é um teatro, como Shakespeare classificaria em outra peça (Como quiserem). Há falas formais, aquilo que as pessoas querem ouvir e que, no fundo, favorece meus planos. Como numa obra dramática, somos atores com falas e marcações de palco. Todo o mundo é, em sentido negativo, um teatro (‘All the world’s a stage’)”

5. Nada é bom ou mau em si: depende do julgamento que fizermos. 

“Será que Hamlet tem razão em dizer que bom e mau são apenas pontos de vista? Em primeiro lugar, ele fala isso com certa ironia. Não acredita na frase. Sabe que felicidade é relativa (voltaremos a isso na conclusão), mas nem tudo o é. Para nós, o limite é o consenso. Na natureza, não há leis com apelo moral ou ético. Somos seres naturais, portanto, em si, não há nada que me impeça de matar, roubar, canibalizar, estuprar e cometer incesto etc. O que me impede de fazê-lo é que, historicamente, chegamos ao consenso de que isso faz mal, prejudica pessoas. Criamos um consenso, e ele virou, em muitos casos, lei. Alguém pode ser punido (depois de julgado) por ter feito coisas assim. Moral e legalmente concordamos que não se deve fazer isso.

Nem sempre foi assim. Hoje em dia, por consenso, não posso tolerar racistas ou pedófilos. Não se trata de uma opinião, mas de um crime terrível. Não existe relativismo para o campo ético da maneira com que passamos a concebê-lo. Racismo faz mal, é imoral e crime. Ponto. Mas, historicamente, a lei e a moral conviviam e estimulavam o racismo. Conclusão, por ora: o que eu acho que é bom ou mau deve ter a mim e ao outro como foco da reflexão. Apenas depois de muito fosfato gasto e muita saliva empregada em longos e balizados diálogos com quem pensa diferente de mim é que posso formular consensos. Alguns já são claros e parecem estar fora da disputa: a vida e os direitos humanos são uma conquista, pois implicam viver sem dor e sem causar dor apenas pela existência de alguém diferente de mim.”

6. Somos todos contraditórios, heróis com traços de vilania. 

“Essa é outra questão fascinante que apontamos na obra do inglês: suas personagens raramente são homogêneas. Hamlet é protagonista e capta nossa benevolência, porém também assume a persona de um assassino eficaz. Cláudio é fratricida e regicida, não obstante bom rei, talvez melhor do que seu irmão. Também é genuinamente apaixonado por Gertrudes e premia seus assessores com benefícios e consideração. As personagens shakespearianas são como você e eu: apresentam momentos sublimes, reflexões sábias, dias de cão, gestos de maldade e oscilações de sentimentos. ‘Todo o mundo é um teatro’, diz o autor na peça Como quiserem, e nós somos atores com entradas e saídas. A vida é um teatro no qual autores e diretores externos contracenam com nosso próprio papel em entrelaçamento de capacidades e acidentes de sorte e azar. Todos fingimos, porém Hamlet é o único que tem consciência disso.”

7. Pensar nos leva à prudência, mas pensar em excesso pode nos acovardar. 

“Covardia ou prudência? Esta é a pergunta de fundo que nos faz aprender com Hamlet mais uma vez. Quando planejamos algo, traçamos estratégias e falamos em metas e objetivos, isso é sinal de que temos capacidade de antever o futuro, tentar agir sobre ele, controlá-lo. (…) Se temos ciência de que nossos planos são guias úteis da razão, mas não camisas de força que nos impeçam de adaptarmo-nos às circunstâncias novas, ótimo. Hamlet vai além no monólogo. Pergunta-se se essa capacidade inequivocamente humana da prudência não poderia ser covardia. A resposta, se posso arriscar uma, é sim, em alguns casos. Quem na adolescência não ficou pensando, maquinando, lucubrando a melhor forma de dizer a uma pessoa que estava apaixonado por ela? Vivemos a cena, em nossa cabeça, mil vezes. Em alguns cenários, a tentativa termina mal e temos que recomeçar, pensando outro itinerário. Por vezes, percurso imaginário escolhido é o certo e, apenas no sonho acordado, a angústia se transforma num beijo ou sorriso promissor. De tanto pensar, demoramos, e quando vemos nossa paixonite adolescente já está de mãos dadas com outra pessoa, que à la Fortimbrás atacou a Polônia com vinte mil homens sem planejar demais.

Hamlet faz um pensar sobre a natureza do pensar, sobre sua utilidade e sobre quanto o ato de pensar pode ser o que nos distingue dos animais (prudência) e quanto pode nos acovardar. Toda essa ponderação o mostra como um moderno, um príncipe filósofo, e Fortimbrás, à maneira de seu pai, um homem medieval, um príncipe da ação. Seria pensar uma ação ou a reflexão barra a ação? Conclusão, por ora, ambas as coisas: como prudência, nos faz agir bem; como excesso (overthinking, o pensar demasiado que paralisa), nos impede de agir. Ação é mescla sem porcentagem definida entre planejamento, sorte e momento. Hipertrofia de qualquer um dos vértices do triângulo gerará uma chance maior de fracasso. Pensar o próprio pensar sobre a ação leva Hamlet à questão da covardia e da grandeza. Diz que grandeza não é permanecer imóvel esperando uma grande causa, mas entrar em briga grande por uma palha.”

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