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8 fatos assustadores sobre como a tecnologia afeta nossas vidas

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Quando foi a última vez que você decidiu, por si próprio, o que comprar, que amigo adicionar à sua vida, como passar o seu tempo livre e, principalmente, o que pensar sobre o mundo que vivemos? Escrito pelo jornalista Franklin Foer, O mundo que não pensa, um dos livros mais aclamados e polêmicos dos últimos anos, mostra o lado sombrio e preocupante da tecnologia do nosso cotidiano. Para o autor, estamos terceirizando nossas capacidades intelectuais para empresas como Apple, Google e Facebook, dando origem a um mundo onde a vida social e política passa a ser cada vez mais automatizada e menos diversa. Foer afirma que nós, os homo sapiens, chegamos a um momento da evolução em que começamos a deixar para trás a característica que mais nos diferenciou das outras espécies: o fato de sermos capazes de pensar, imaginar, refletir e conhecer.

Listamos oito perigos da tecnologia que Foer detalha em O mundo que não pensa, deixando claro que, com as descobertas e invenções espetaculares das últimas décadas, houve uma verdadeira revolução no controle do conhecimento e da informação, mas essa mudança brusca e vertiginosa coloca em perigo a maneira como pensamos e, em última instância, o que somos.

O autor e jornalista Franklin Foer

 

1. As gigantes da tecnologia falam em salvar o mundo, mas essa é apenas a embalagem de uma prática altamente monopolizadora.

“Em vez de promover uma profunda redistribuição de poder, as novas redes são capturadas pelos novos monopólios, sempre mais poderosos e sofisticados do que os que vieram antes”, escreve Foer. “O computador pessoal acabou sob o domínio de uma empresa inibidora de inovação (Microsoft). O acesso à internet logo exigiu que fossem pagas quantias mensais significativas para empresas de telecomunicação que fatiaram o mapa em zonas de supremacia quase inquestionável (Comcast, Verizon, Time Warner). Ao mesmo tempo, apenas um site (Google) despontou como o portal para o conhecimento; outro (Amazon), como ponto de partida para todo o comércio. E embora possamos falar em redes sociais no plural, a verdade é que apenas uma delas (Facebook) abarca cerca de dois bilhões de indivíduos.”

O autor lembra que hoje nenhum startup hoje sonha em desbancar o Google ou o Facebook: a meta hoje é ser comprada pelas gigantes. “Na indústria da tecnologia, a concorrência corporativa acirrada é vista como uma impossibilidade, contrária à própria essência da rede”, escreve. “A cordialidade pode ser comprovada por meio dos balanços financeiros: o Google paga um bilhão de dólares todo ano para que a Apple continue usando sua ferramenta de busca. Enquanto era CEO do Google, Eric Schmidt também participava do conselho da Apple. Assim como as potências europeias do século XIX, cada uma dessas grandes empresas evita invadir a esfera de influência das demais, competindo apenas nas margens do império.”

Vale ainda citar Marc Andreessen, uma das figuras mais veneradas do Vale do Silício: “Os grandes mercados de tecnologia tendem a ser do tipo que o vencedor leva tudo. Há essa suposição – em mercados normais pode existir a Pepsi e a Coca. Nos mercados de tecnologia, no longo prazo, a tendência é que haja apenas uma, ou então uma empresa número um. O cerne da questão é: no Vale do Silício, tudo é único; sempre foi assim.”

2. A grande meta do Google é alterar o curso da evolução humana e deixar nosso cérebro obsoleto.

“No epicentro do protuberante portfólio do Google, um projeto sobressai: a empresa quer criar máquinas que repliquem o cérebro humano, para depois ir além. Essa é a essência das tentativas de montar um banco de dados completo do conhecimento global e dos esforços para treinar algoritmos para encontrar padrões, ensiná-los a discernir imagens e entender línguas. Ao assumir essa imponente missão, o Google se mostra a postos para transformar a vida no planeta, exatamente como se vangloriou que faria. As leis do homem são um mero incômodo, que podem apenas retardar um pouco esse trabalho. Instituições e tradições não passam de sucata a ser descartada. A empresa avança a passos largos rumo à Nova Jerusalém, sem se preocupar muito com o que vai deixando pisoteado pelo caminho”, afirma o autor.

“Pode ser que o Google alcance essas metas ambiciosas, como pode ser que não alcance, mas é assim que a empresa enxerga seu papel”, completa. Ele lembra que Larry Page, CEO da Alphabet, como hoje é chamada a holding que controla o Google, afirma que a empresa está reconfigurando o futuro da humanidade – e essa não é apenas uma descrição dos serviços oferecidos. O que eles pretendem, segundo Franklin Foer,  é redirecionar o curso da evolução, no sentido darwinista da palavra.

“Não é demais afirmar que eles estão tentando criar uma espécie superior, uma espécie que transcenda nossa forma natural. Não se trata apenas de se vangloriar da soberania sobre uma indústria em que não enfrenta concorrentes de verdade; é uma questão de se vangloriar da soberania sobre algo muito mais vasto, uma declaração das intenções do Google de impor seus valores e convicções teológicas ao mundo”, conclui.

3. O Facebook é um grande laboratório – e nós somos as cobaias.

O Facebook tem uma equipe especializada em ciência de dados que conduz experimentos com os usuários. “É o sonho mais erótico possível dos estatísticos: um dos maiores conjuntos de dados da história da humanidade e a capacidade de rodar testes em coortes matematicamente significativos”, afirma o autor. Nas palavras entusiasmadas de Cameron Marlow, antigo chefe da equipe de ciência de dados do Facebook: “Pela primeira vez, temos um microscópio que não apenas nos permite examinar o comportamento social num nível muito detalhado, que jamais conseguimos ver antes, como também possibilita fazer experimentos a que milhões de usuários estão expostos.”

Mas Foer lembra que o Facebook gosta de se gabar de seus experimentos, mas não costuma entrar em muitos detalhes sobre eles. Alguns, porém, acabaram escapando dos limites de seus laboratórios. “Sabemos, por exemplo, que a empresa queria descobrir se as emoções são contagiosas”, conta. “Para conduzir esse teste, tentou manipular o estado mental dos usuários. Para um dos grupos, excluiu as palavras positivas dos posts que aparecem no feed de notícias; para outro grupo, removeu as palavras negativas. A conclusão foi que os usuários de cada grupo escreveram posts ecoando o espírito daqueles que a empresa havia parafraseado. Esse estudo foi amplamente condenado como invasivo, mas não é algo tão incomum assim. Como confessou um dos membros da equipe de ciência de dados da empresa: ‘Qualquer um daquela equipe podia rodar testes. Eles estão sempre tentando alterar o comportamento das pessoas.'”

4. Embora o Facebook fale em transparência de governos e empresas, o que realmente quer é a transparência dos indivíduos.

“Embora por vezes o Facebook fale sobre transparência dos governos e das empresas, o que realmente quer promover é a transparência dos indivíduos – ou o que chamou, em vários momentos, de ‘transparência radical’ ou ‘transparência máxima’, escreve Foer no livro. “A teoria sustenta que ao compartilharmos nossos detalhes íntimos, desinfetamos a confusão moral da nossa vida. Mesmo sem a intenção de que nossos segredos se tornem conhecimento público, a exposição deles é capaz de melhorar a sociedade. Com a iminente ameaça de que nossas informações constrangedoras sejam divulgadas, acabamos nos comportando melhor. E talvez a ubiquidade de fotos incriminadoras
e revelações danosas venha a servir de estímulo para que sejamos mais tolerantes com os pecados alheios. Além disso, viver a vida com verdade é uma virtude. ‘Provavelmente está chegando ao fim essa ideia de ter uma imagem para os amigos ou colegas de trabalho e outra, diferente, para as demais pessoas’, afirmou Zuckerberg. ‘Ter duas identidades para si mesmo é um exemplo de falta de integridade.’ A questão é que o Facebook tem uma ideia muito forte e paternalista sobre o que é melhor para as pessoas, e está tentando transportá-las para
esse lugar. ‘É um grande desafio conduzir as pessoas a esse ponto de maior franqueza. Mas acho que conseguiremos”, disse Zuckerberg. E ele tem muitas razões para acreditar nisso. Com o tamanho que atingiu, o Facebook acumulou poderes gigantescos. Os poderes são de tal ordem, que Zuckerberg nem se preocupa em negar a realidade: ‘Em muitos aspectos, o Facebook se assemelha mais a um governo do que a uma empresa tradicional. Temos uma ampla comunidade de pessoas, e mais do que outras empresas de tecnologia, estamos de fato definindo certas políticas.'”

5. Conteúdo em quantidade não significa conhecimento de qualidade.

“Eis a curiosa essência dos novos monopólios de conhecimento: eles na verdade não produzem conhecimento; apenas filtram e organizam o que há disponível. Dependemos de um pequeno grupo de empresas para nos dar um senso de hierarquia, identificar o que deveríamos ler e o que deveríamos ignorar, para determinar ganhadores e perdedores nessa corrida pela informação. É incrível o poder econômico e cultural que essas empresas acumularam, por conta de uma mudança repentina na estranha economia do mercado em que estão inseridas, uma mudança que elas mesmas aceleraram”, explica Foer no livro.

“A organização do conhecimento é uma atividade muito antiga. Aqueles que se ocuparam dessa seara ao longo dos séculos – bibliotecários e livreiros, intelectuais e arquivistas – foram ensinados a tratar o próprio ofício com um amor que beirava a devoção. Um código profissional suplicava que encarassem seus produtos como se o mundo dependesse do trânsito seguro deles através das gerações. As empresas de tecnologia não estão muito preocupadas com isso. Elas encabeçaram o declínio do valor econômico atribuído ao conhecimento, enfraquecendo enormemente os jornais, as revistas e os editores de livros. Ao derrubar o valor do conhecimento, acabaram diminuindo sua qualidade.”

6. As grandes empresas de tecnologia estão ditando novos – e precários – padrões de trabalho

A dependência em relação às gigantes da tecnologia é um drama cada vez maior para trabalhadores e empreendedores. “Motoristas bagunçam seus padrões de sono em função do que dá na telha da Uber. Empresas que produzem quinquilharias vendidas na Amazon veem seus negócios afundarem quando os algoritmos detectam alguma lucratividade no que elas vendem, e a gigante resolve ela mesma produzir aqueles bens, a um preço mais baixo”, escreve Foer em seu livro. “O problema não é só de vulnerabilidade financeira. É a forma como as empresas de tecnologia ditam os padrões de trabalho, como sua influência pode transformar o etos de todo um ofício para atender a suas necessidades particulares – reduzindo os padrões de qualidade, corroendo as garantias éticas. Eu vi isso de perto quando trabalhei na New Republic. Vi como a dependência em relação às empresas de tecnologia deteriorou a própria integridade do jornalismo. Quando esse capítulo da minha trajetória profissional estava no início, não imaginava que seguiríamos esse rumo.”

Outro setor que vem sendo moldado pelas vontades do Facebook é o de mídia e imprensa. “Sem mais nem menos, o Facebook decide que seus usuários preferem vídeos a palavras, ou que preferem propaganda ideológica sob medida a notícias sérias e importantes, de relato objetivo”, afirma. “Quando o Facebook muda de direção desse jeito ou quando o Google ajusta seu algoritmo, na mesma hora causam impacto no tráfego da web que chega aos veículos de mídia, com todas as consequências que reverberam na receita. As empresas de mídia sabem que deveriam se livrar das garras do Facebook, mas dependência também gera covardia. O prisioneiro passa dia e noite ali, dentro da cela, sonhando com planos de fuga que nunca se concretizam.”

7. As empresas do Vale do Silício vêm tornando a escrita uma mercadoria barata e dispensável.

Franklin Foer ressalta que o Vale do Silício tem uma visão completamente diferente a respeito da criatividade humana, derrubando uma ideia enraizada no âmago da civilização ocidental: a questão do gênio e da originalidade. “Essas empresas acreditam nas virtudes da colaboração: grupos que trabalham de forma harmônica produzem ideias melhores do que indivíduos isolados. Elas consideram a originalidade um ideal superestimado, até pernicioso. Ao enfatizar a questão do gênio, permitimos que um pequeno grupo de escritores profissionais aja como se monopolizasse o conhecimento ou possuísse habilidades sobre-humanas. A aura de genialidade que envolve o escritor de sucesso cria a impressão de que as massas têm pouco potencial criativo, o que serviu de justificativa para alimentá-las à força com a produção criativa desse pequeno sacerdócio de gênios.”

Se elas estivessem apenas ridicularizando nosso antigo fetiche pela questão do gênio, seria uma atitude inofensiva, talvez até saudável. Porém, na visão de Foer, os objetivos são muito mais revolucionários do que isso. “A ideia é desmantelar as estruturas que até hoje protegeram nossa concepção de autoria. O Vale do Silício travou uma guerra contra os escritores profissionais, na tentativa de enfraquecer as leis de direito autoral que permitem que esses escritores consigam viver do que escrevem. Em seu plano de negócios, o valor do conhecimento é radicalmente esvaziado, tornando a escrita uma mercadoria barata e descartável. Para ter sucesso nessa estratégia, tentou-se minar o prestígio do autor profissional. Essa guerra é mais um exemplo do falso populismo do Vale do Silício.”

8. As redes sociais reduzem nossa capacidade de pensar por conta própria e de discernir fato de ficção.

Se na economia o perigo é o monopólio, na cultura o perigo é a conformidade – quando um mercado competitivo de ideias deixa de ser tão competitivo, quando a ênfase se transforma em consenso. Em O mundo que não pensa, Franklin Foer resgata o conceito (elaborado por Kevin Kelly, editor da revista Wired, dedicada à tecnologia) da mente-colmeia: o momento em que superamos nosso fetiche pelo autor e nos rendemos à colaboração coletiva, aos wikis da vida e às demais tendências das mídias sociais, quando nos entregamos à sabedoria das multidões. Mas, na visão do autor, em seu entusiasmo, Kelly inconscientemente expressou as implicações mais sombrias de sua visão. “A mente-colmeia era para descrever uma ideia de beleza, a humanidade trabalhando de forma muito bem orquestrada. Mas sejamos francos: quem gostaria de viver numa colmeia? Sabemos, pela história, que esse tipo de consenso é de uma beleza plástica, uma mesmice, sufocante. Ele abafa os desacordos e estrangula a originalidade”, escreve o autor.

E o mesmo vale para a política. “Nossa época é pautada pela polarização, por bandos ideológicos beligerantes que não abrem mão de nenhum território. A divisão, no entanto, não é a principal causa de nosso sistema inoperante. Há muitas causas, mas um problema básico é a conformidade. O Facebook criou duas mentes-colmeia – a colmeia sempre tem uma abelha-rainha, claro –, cada uma vivendo num ecossistema que nutre o consenso e penaliza as visões discordantes. Uma mente-colmeia é intelectualmente inábil, com capacidade cada vez menor para discernir o que é fato e o que é ficção, além de uma inclinação para evidências que confirmem sua linha partidária. O Facebook conseguiu atingir o consenso, mas não exatamente como prometeu. Em vez de unir o mundo, o poder de sua rede ajudou a dividi-lo. Digam o que há de pior sobre nossas antigas ideias de gênio e originalidade – mas nada é pior que isso”, conclui.

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