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9 fatos da vida incrível da cantora Elza Soares

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Em Elzaa biografia de uma das maiores cantoras de todos os tempos, Zeca Camargo resgata a trajetória de Elza Soares, da infância pobre ao sucesso, consagrada em discos que marcaram a música brasileira e seguem cativando gerações de fãs. São muitas histórias, muitas alegrias e também tristezas – um turbilhão de sentimentos. Fosse pela necessidade de colocar comida na mesa para os filhos, fosse pela busca de seu sonho de cantar, de gritar até o fim, Elza não mediu esforços, enfrentou derrotas, driblou obstáculos, viajou por boa parte do mundo, foi do inferno ao céu, mas nunca desistiu. A filha de dona Rosária, nascida no bairro carioca de Água Santa, recebeu o título de Voz do Milênio, atribuído pela BBC de Londres, após o Brasil e o mundo se curvarem à sua voz e ao seu carisma.

Listamos aqui alguns dos fatos que marcaram a vida de Elza Soares, narrados pela própria cantora ao autor Zeca Camargo.

Elza Soares em 2018

 

1. Elza conta ter recebido uma visita de São Jorge quando tinha cinco anos.

Como escreve Zeca Camargo, “ela se dirigiu ao santo com um pedido: ‘São Jorge, posso pedir pro senhor dizer para meu pai não me bater tanto assim? Eu prometo que vou ser uma menina boazinha, São Jorge, eu não vou ficar aprontando muito não…’ A resposta de São Jorge, como ela a teria ouvido, veio em forma de profecia. Elza se lembra de ter escutado ele dizer que ela ainda apanharia muito – e conta isso como quem já prepara uma frase de efeito: ‘Mal sabia eu que ele queria dizer que eu iria apanhar mais da vida do que do meu pai.’ Depois que eles partiram, Elza foi contar todo o episódio para sua mãe, que ouviu com a credulidade de uma fiel – dona Rosária, espírita desde criança, disse para a filha nunca se esquecer desse recado. Já sua avó Cristina, mãe de Rosária, ficou bravíssima quando ouviu a história toda, e saiu dizendo que ‘aquela aquela menina’ só inventava coisas…”

2. Foi forçada a se casar aos 13 – e perdeu dois dos seis filhos que gerou ainda adolescente.

“Elza nem sabia direito do que estava se defendendo e nunca teve certeza das intenções de Alaordes, se o que ele queria era mesmo sexo, um universo que ela desconhecia por completo. O mais provável era que ela estivesse apenas tentando se livrar de mais um ‘ataque’ de uns dos moleques da rua, essas brigas corriqueiras entre ‘garotos’, como várias que já tinha presenciado. Mas quando seu pai viu de longe o que parecia ser duas pessoas se agarrando, não teve dúvidas: aquele garoto estava tentando abusar da sua filha – e isso não ficaria em branco, o rapaz pagaria por aquilo. A honra de sua filha só estaria limpa com o casamento”, escreve Zeca.

Da relação com Alaordes, Elza Soares deu à luz Carlinhos, Raimundo (que faleceu ainda em seu primeiro ano de vida), um terceiro (que nunca chegou a ser batizado) filho morto logo no parto, Gérson, Dilma e Gilson. Mais tarde, ainda sofreria a perda do Júnior, de sua relação com Garrincha, nos anos 1980, e, mais recentemente, Gilson, seu filho mais novo do primeiro casamento. “Tudo dói, dói igual – e de um jeito que não dá para descrever”, conta Elza.

Mas sua trajetória também é composta por superação e muito brilho.

A família de Elza Soares

 

3. Desde a estréia no rádio, em 1953, solta frases tão incríveis quanto a sua voz.

Em 1953, Elza Soares participou do programa “Calouros em desfile”, apresentado por Ary Barroso na Rádio Tupi. Cantar ali era o sonho de muitos cantores e cantoras aspirantes, um caminho para o estrelato. “Entrei segurando minha roupa para ela não desmontar e arrastando uma sandália muito vagabunda, que era a única que eu tinha, e o Ary logo me olhou com aquela cara de quem ia aprontar alguma comigo”, lembra a cantora. Na biografia “Elza”, Zeca Camargo narra os detalhes. “As gargalhadas só cresciam e com elas o apresentador se sentiu ainda mais à vontade para ironizar a candidata ‘fresquinha’. ‘O que você veio fazer aqui?’, perguntou impiedoso. ‘Vim cantar’, respondeu Elza, achando que era melhor não ceder às brincadeiras. Ele dobrou então a provocação: ‘E quem disse que você canta?’ Outra resposta curta: ‘Eu, seu Ary.’ Apesar da aparência risível, parecia uma caloura difícil de ‘quebrar’ com qualquer piada. Por isso, talvez, a próxima pergunta tinha beirado a grosseria: ‘Então, agora, me responda, menina, de que planeta você veio?’ Elza: ‘Do seu planeta, seu Ary!’ O apresentador, já perdendo a paciência, insistiu: ‘E posso perguntar que planeta é esse?’ Parecia que a resposta já estava na ponta da língua: ‘Do planeta fome.’

Os quase 70 anos de carreira de Elza Soares são compostos por muitas outras tiradas como essa, quase tão incríveis quanto sua voz e seu talento como cantora.

4. Um de seus primeiros contatos com o racismo foi quando sua mãe “caiu” num fosso de elevador.

“Eu sabia que minha família era toda negra, mas demorei muito para saber que aquilo era algo que dividia as pessoas. A primeira história foi minha mãe que contou. Eu já estava casada, com os meninos em casa e ela chegou toda quebrada, mancando. Tinha ido levar uma roupa que tinha lavado num prédio e, como o elevador de serviço estava quebrado, o porteiro disse que poderia usar o social. Só que quando minha mãe entrou, ela caiu no fosso: o elevador não estava lá. Vi minha mãe chorando muito, ela dizia que o homem tinha feito aquilo de propósito, por pura maldade. Ela não chegou a falar a palavra em si, mas eu sabia que era preconceito, coisa de branco para fazer mal ao negro.”

E ela diz mais: “Racismo? A gente enfrenta todo dia. Tem que gritar mesmo.”

Elza nos anos 1960

 

5. Na primeira vez em estúdio, foi recebida com um farto café da manhã – e só pensava em como levar algo para casa e alimentar os filhos.

Em 1959, Elza foi gravar na prestigiosa gravadora Odeon, responsável por alguns dos maiores sucessos musicais do período. “Quando eu entrei lá, tinha uma mesa de café da manhã como eu nunca tinha visto na minha vida. Minha primeira reação foi perguntar: ‘Isso tudo é para mim?’ Claro que era, um festival de comida: pão de tudo quanto era jeito, presunto, mortadela, queijo, manteiga… Por alguns momentos eu me esqueci totalmente do teste e comecei a pensar em como eu faria para levar aquilo tudo para minha casa, para as minhas crianças”, lembra a cantora. E, na biografia “Elza”, Zeca Camargo completa: “Se nada desse certo, pelo menos ela garantiria a comida dos próximos dias. Mas ali na hora, preocupada com o teste e ainda meio sem jeito, Elza fez só um pequeno lanche, um pão com queijo, enquanto observava todo mundo que estava lá para vê-la cantar.”

O resultado daquela gravação foi o compacto “Se acaso você chegasse”, o primeiro grande sucesso da carreira de Elza e clássico absoluto da MPB.

 

6. Elza se exilou na Itália após uma série de ameaças.

“Eu temia pelos meus filhos, pelo Mané, por mim mesma”, lembra Elza Soares. Ela e o marido, o jogador Garrincha, recebiam telefonemas anônimos e chegaram a sofrer uma tentativa de sequestro. Elza não sabia quem exatamente queria assustá-la, mas motivos não faltavam. A opinião pública ainda não se conformava com sua união com Garrincha. E havia um resquício de perseguição política por conta do envolvimento de Elza com o presidente João Goulart, deposto pelo Regime Militar em 1964.

“A gente até segurava. Mas eu tentava proteger as crianças, não queria que esse clima de tensão chegasse nelas. Já bastava o que eles sofriam no colégio, com piadinhas, gente insultando meus filhos. Só que eu pressentia o momento em que tudo ia estourar”, lembra a cantora. E o ultimato chegou um dia numa carta anônima colocada embaixo da porta de casa. Ela não se esquece do texto curto, escrito numa letra caprichada, que decretava simplesmente: “‘Vocês têm que deixar o país em 24 horas!’ Não tinha assinatura, não tinha marca no papel, não tinha nada, só aquela sentença feita pra gente se sentir acuado. Estava claro que eles não queriam mais a nossa presença aqui no Brasil.”

Elza e Garrincha no Vaticano

 

7. O apoio de Caetano Veloso foi fundamental num dos momentos mais difíceis da carreira da cantora.

“Eu parecia uma louca, já cheguei com os olhos cheios d’água. Não estava nada bem, e o que eu queria mesmo era desabafar com alguém com quem eu tinha convivido tantos anos. No meio do choro, eu dizia: ‘Minha carreira acabou mesmo, Caetano, pra mim não tem mais nada, eu não estou conseguindo achar o meu lugar mais. Por isso eu vou parar de cantar’”, lembra Elza Soares. “Disse que ninguém me chamava mais pra nada, que minha situação estava muito ruim e que, como artista, eu não existia mais. Caetano me perguntou o que eu estava fazendo em São Paulo e respondi que estava com meu filho e que tentaria fazer alguns shows, sem entrar em detalhes, mas que naquele momento eu estava tentando emprego numa creche.”

A resposta de Caetano: “Falei veementemente que não dava, que não era possível. Ela é de uma potência criadora. É um esteio para o Brasil. Desde que apareceu, já apareceu com aquela afirmação do talento, da personalidade, com uma visão de mundo aguda. Então, puxa, isso não se joga fora.”

Elza e Caetano nos anos 1980

 

8. Substituiu Ella Fitzgerald em turnê na Europa – e foi ovacionada

“De repente, num restaurante chiquérrimo de Roma, estávamos sentados numa mesa eu, Jorge Ben Jor, Trio Mocotó, a própria Ella, o empresário Franco Fontana e Garrincha. Tudo aconteceu porque Naná Vasconcelos, que já era o percussionista mais famoso que o Brasil tinha exportado até então, tinha ligado pra Ella, que era sua amiga, e tinha sugerido que eu a substituísse, enquanto ela fazia uma operação de catarata. Ela me disse que o próprio Naná tinha dito que nenhuma outra cantora poderia cantar no lugar dela – só eu! Aí, acho que alguém mostrou alguns discos meus pra ela, que então quis me conhecer”, recorda Elza Soares.

Foram vários shows pela Europa, apresentações que já estavam marcadas com mais de um ano de antecedência. “As pessoas achavam meio estranho quando viam que não era Ella que estaria no palco, mas aí eu começava a cantar Jobim e as pessoas iam gostando. No fim, era aplaudida de pé! Eu tinha assistido a uns dois shows de Ella antes de assumir a turnê, mas eu não queria imitar ela não, fui mesmo pra ver ela cantar… e era uma maravilha!”

9. Foi eleita pela BBC de Londres como “a melhor cantora do milênio”.

Conforme narra Zeca Camargo, “assim que foi anunciada a escolha dela como uma das vozes do milênio, Elza fez um show, ainda em fevereiro de 2000, no hotel Glória no Rio, que foi transmitido ao vivo pela BBC. Ela havia entrado para uma seleta lista de talentos musicais do mundo todo – que incluía Wynton Marsalis e Ladysmith Black Mambazo. Naquele momento, ela queria celebrar o título com o público inglês e, por conta disso, fez uma apresentação delirante no Shepherd’s Bush Empire, misturando seu repertório de ‘Dura na queda’ com alguns sucessos antigos – acompanhada de uma banda modesta de sete músicos, sendo três percussionistas do AfroReggae, da comunidade da Maré, com quem estava fazendo trabalhos sociais, resgatando esses garotos das drogas ao oferecer a arte como alternativa. Elza voltaria para o Brasil coberta de críticas extasiantes.”

 

E essas são apenas algumas das histórias fascinantes da incrível vida de um dos maiores ícones de nossa cultura. Tem muito mais no livro!