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As abolicionistas, por Paulo Rezzutti

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Neste 13 de maio de 2020, data em que celebramos os 132 anos da abolição da escravidão no Brasil, o escritor e pesquisador Paulo Rezzutti retoma algumas das grandes personagens que lutaram pela liberdade dos negros no Brasil presentes em seu livro Mulheres do Brasil, volume da série “A história não contada”.

Além da princesa Isabel, apelida de a “Redentora”, centenas de brasileiras lutaram pela abolição e acabaram esquecidas. Vamos relembrá-las?

A poetisa Narcisa Amália (1852-1924) foi a primeira mulher a se profissionalizar como jornalista, alcançando projeção em todo o país com artigos em favor do fim da escravatura, dos direitos da mulher e dos oprimidos. Adelina, uma charuteira, escrava do próprio pai, participou de vários comícios abolicionistas em São Luís do Maranhão. Exímia conhecedora das ruas da cidade, ajudou os abolicionistas passando-lhes informações e articulando a fuga de escravos.

Na Bahia, Amélia Rodrigues, em seus artigos no jornal O Monitor, protestava contra o envio de escravos para a Guerra do Paraguai. Em Pernambuco, Ignês Pessoa denunciava em seus poemas o sofrimento dos cativos, enquanto Maria Amélia de Queiróz fundava com outas companheiras a associação Aves Libertas para lutar pela abolição. No Ceará, Maria Tomásia Figueiredo de Melo, uma das fundadoras e presidente da sociedade abolicionista feminina Sociedade das Cearenses Libertadoras, fundada em dezembro de 1882, teve papel preponderante na abolição da escravidão na província, em 1884.

Outra grande mulher foi Maria Firmina dos Reis, nascida em 1825 em São Luís, Maranhão. Mestiça, filha da branca Leonor Felipe dos Reis e do negro, provavelmente ex-escravo, João Pedro Esteves, foi criada pela família materna. Educada em casa, continuou os estudos como autodidata, aprendendo a ler e escrever francês fluentemente.

Em 1859, Maria Firmina publicou seu romance Úrsula, com o pseudônimo de “Uma Maranhense”. Além de ter sido o primeiro romance abolicionista brasileiro, foi o primeiro escrito por uma mulher publicado no Brasil. Os demais romances do gênero, como As vítimas-algozes (1869), de Joaquim Manuel de Macedo, e A escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães, e o poema de Castro Alves Navio negreiro (1869), são posteriores e escritos por homens sob o ponto de vista masculino. Tanto Macedo quanto Guimarães tratam a escravidão em suas obras como um mal que deve ser combatido para a preservação da família branca. Castro Alves aborda a desumanização do homem por meio do tráfico. Enquanto isso, Maria Firmina falou da mulher negra e da história feminina na África, humanizando a personagem com uma verdade inerente aos escritores que vivenciam e conhecem sobre o que escrevem sem idealizar o tema.

Além do ponto de vista do negro, Firmina explorou em seu romance o da mulher, fazendo crítica ao patriarcado, como quando diz:

“Não sei por quê, mas nunca pude dedicar a meu pai amor filial que rivalizasse com aquele que sentia por minha mãe, e sabeis por quê? É que, entre ele e sua esposa, estava colocado o mais despótico poder: meu pai era o tirano de sua mulher; e ela, triste vítima, chorava em silêncio e resignava-se com sublime brandura.”

Além do romance, Maria Firmina também publicou textos em jornais como A Imprensa, O Jardim dos Maranhenses, Porto Livre, Semanário Maranhense, O Domingo, O País e outros periódicos maranhenses, utilizando as iniciais M.F.R. como assinatura.

Em 1847, ela prestou concurso e foi aprovada como professora primária na Vila de Guimarães. Foi a primeira mulher a passar nessa prova em seu estado. Aposentou-se em 1881, e, um ano antes, aos 55 anos, fundou a primeira escola mista do Maranhão, onde recebia tanto negros quanto brancos. A escola foi fechada em 1890, e Maria Firmina morreu em 1917, aos 92 anos, pobre e cega.