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Mulheres não cabem em caixinhas

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Lançado em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o vídeo da canção “Perfeitinha”, interpretada por Enzo Rabelo, filho de 11 anos do Bruno, da dupla Bruno & Marrone, já tem quase cinco milhões de visualizações no YouTube em uma semana. Periga ser o primeiro grande hit pós-carnaval – e, de alguma forma, se sustenta exatamente em torno da negação da liberdade que é a essência dessa festa e, acima de tudo, de um sentimento oposto ao empoderamento feminino que vem marcando nossos últimos carnavais.

Enzo abre a música cantando para alguém que “é uma princesa”. Pode parecer inofensivo, mas estão ali todos os arquétipos do machismo escondidos pela sedução, pela nomeação da moça como “princesa” – talvez a palavra mais repetida nos assédios nossos de cada dia. Mas, em seguida, ainda que pré-adolescentes cantando sobre amor não seja exatamente o que esperamos para 2019, ele parece subverter, mesmo que de leve, alguns estereótipos da feminilidade: sua princesa “não usa coroa, ela usa boné. Não precisa de salto, ela para o baile só de tênis no pé.” E deixamos a música rolar, começando a cultivar uma simpatia por aquele homenzinho apaixonado.

Então lá vem: “Ela tem um brilho que brilha mais que brilhante. Uma joia rara, ela é tipo diamante. E, adivinha só, ela é toda, toda, toda perfeitinha. E o melhor é que ela é toda, toda minha. Dá vontade de guardar numa caixinha pra ninguém roubar.” Outro perigo: mais que “perfeitinha”, ela ainda “é toda, toda minha” (dele). É o tal vírus da propriedade sobre a mulher, em suas virtudes do brilho feminino. Se o brilho cessa, sob a perspectiva de quem o vê, mata-se! Ou, então, amputa-se, metafórica ou literalmente: a imagem evocada é a do filme “Encaixotando Helena”, que causou polêmica no início da década de 1990 por narrar a história de um homem que, obcecado, corta as pernas e os braços de uma mulher para, como botaram o pequeno Enzo para cantar, tê-la toda, toda para ele e guardá-la numa caixinha…

Por aqui, preferimos o que nos diz Elza Soares: “Eu nunca gostei de ser mulher de fulano. Eu sou eu.”

E Fernanda Young: “Eu sou livre! Não tenho rótulos, não tenho dono, não tenho patrão.”

Vamos substituir os versos cantados por Enzo pelos escritos por Amanda Lovelace em A princesa salva a si mesma neste livro:

“a princesa pulou da
torre
& ela
aprendeu
que podia
voar
desde o começo
– ela nunca precisou daquelas asas.”

Ou como a própria Amanda reforça em outra obra, A bruxa não vai para a fogueira neste livro:

“Mulheres,
eu imploro:
ateiem fogo.”

Nossas mulheres não cabem em caixinhas, nossas mulheres pulam de torres e alçam voo sozinhas. Nossas mulheres não brilham, nossas mulheres ateiam fogo!