MENU

Conhecendo a história do Brasil nas ruas de Paris

postado em

por Maurício Torres Assumpção

Nas primeiras horas da manhã de 23 de junho de 1903, Alberto Santos Dumont sobrevoou a avenue des Champs-Élysées, em Paris, com seu pequeno balão dirigível. Passando pelo edifício onde morava, aterrissou na avenida, saltou do aparelho e subiu ao seu apartamento para tomar um café. Da janela, apreciou a vista, a Torre Eiffel e, lá embaixo, a multidão curiosa que cercava o seu balão. Terminado o café, desceu à rua, afastou o público e voltou a embarcar no aparelho. Deu partida no motor e decolou suavemente, assombrando o povo a caminho do trabalho.

Essa escala para um cafezinho entrou para a crônica da cidade, com direito a placa comemorativa na porta do edifício. Da placa, surgiu o projeto do livro A história do Brasil nas ruas de Paris. Ou melhor, dela surgiu o Guia de Paris para brasileiros, que se transformou no livro, na medida em que a placa se revelava tão somente a ponta de um enorme iceberg histórico. Com ele emergiriam outras placas, monumentos e nomes de ruas que homenageiam os brasileiros que fizeram diferença na França. Hoje, analisados sob a lupa da curiosidade, esses monumentos desvendam histórias pitorescas e emocionantes, que, com toda sua carga humana, vão muito além de nomes e datas gravados numa pedra empoeirada. Para entender essa aventura, contudo, torna-se necessário abraçar os contextos históricos francês e brasileiro, bem como o processo de formação da imagem do Brasil na França.

A imagem da França no Brasil, você já conhece. Basta entrar em qualquer grande livraria para encontrar vários das centenas de livros e teses escritos sobre os franceses e sua influência no Brasil. Do Iluminismo a Jacques Lacan, passando, entre outros, pela Missão Artística Francesa e Auguste Comte, a França esteve sempre na ordem do dia, pelo bem do nosso progresso. Daí vêm a Inconfidência Mineira, o Positivismo, o Kardecismo, o movimento republicano, a Semana de 22, a arquitetura moderna, o estruturalismo. Enfim, um universo político e sociocultural inspirado pela França, que, do século XVIII até a Segunda Guerra Mundial, ditava o modelo de civilização e refinamento seguido por boa parte do mundo.

Logo, compreende-se por que tantos personagens da história do Brasil tenham, em sua trajetória, feito escala em Paris. Se alguns ali procuravam asilo político, outros almejavam desenvolver-se acadêmica ou profissionalmente, quando não buscavam inspiração artística e oportunidades para divulgar sua obra. Dos pensionistas do imperador a Chico Buarque, passando pelos barões do café, inventores e artistas, “foram todos para Paris”. Muitos, no entanto, fizeram mais do que absorver passivamente o que a cidade oferecia. Nela, deixaram a sua própria marca, concorrendo para a formação da imagem que a França teria dos brasileiros. Pouco ou quase nada, porém , se tem escrito sobre essa presença brasileira na história da França.

O propósito de A história do Brasil nas ruas de Paris é, portanto, pingar uma gota de brasilidade neste oceano de francesismo que afoga as livrarias. Sem ter a pretensão de ser um trabalho acadêmico, o texto cobre duzentos anos de história, revelando a saga dos brasileiros que deixaram seu legado na cidade de Paris – seja um legado concreto, literalmente, como o de Oscar Niemeyer; ou contribuições para o desenvolvimento da ciência e tecnologia, como fizeram D. Pedro II e Alberto Santos Dumont; ou, ainda, uma melodia no coração dos parisienses, cortesia de Heitor Villa-Lobos.

Refazendo a trajetória desses personagens, o livro apresenta o contexto histórico que os levou a Paris, o que realizaram na cidade, com quem se relacionaram e que impacto tiveram sobre seus pares e a sociedade francesa da época. Sem perder de vista as balizas imprescindíveis da história oficial, o texto realça as estórias normalmente relegadas às notas de pé de página na literatura acadêmica. Assim, nesta viagem virtual a Paris, você assistirá a Dom Pedro I regendo uma orquestra ao lado de Rossini, e Dom Pedro II fazendo uma visita surpresa (e um tanto embaraçosa) a Victor Hugo. Você jantará com Santos Dumont no Maxim’s, antes de voar (e cair!) sobre os telhados de Paris a bordo do seu dirigível. Depois, com o arquiteto Lúcio Costa, assistirá a Josephine Baker rodando sua saia de bananas no Folies Bergère. Também verá como Villa-Lobos escapou de ser comido por canibais, e como Pixinguinha botou Paris para sambar na louca década de 1920.

Bon voyage!

(Texto adaptado de trecho de prefácio do livro A história do Brasil nas ruas de Paris, de Maurício Torres Assumpção.)