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Fernanda Young apresenta “Pós-F.”, seu novo livro

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Não sou especialista em nada. Melhor, não sou especialista de coisa pronta. Procuro me aprimorar em mim, entendendo sobre mim – usando, é claro, tudo que observo nos outros. E, com um otimismo ainda juvenil, tento fazer algo novo. Mesmo que reconheça nisso uma certa ingenuidade. E creio que ser ingênuo, depois de uma certa idade, cai mal. No entanto, esse é um impulso inevitável; se desisto dele, eu me tornaria enfadonha para mim mesma.

Nunca quis ser uma “entendedora” desse ou outro autor, filósofo, artista. Eu os usufruo, todos, com liberdade. Convivo como uma igual e não como discípula. Tenho sido bastante obstinada em compreender a mim mesma e o mundo em que habito. Não me importam os que insistem em me acusar de egocêntrica. Na verdade, até me divirto, visto que é uma observação tão óbvia e, nem só por isso, de uma burrice infinita. Há anos venho dizendo que a burrice é uma deficiência de caráter. A ignorância, sua irmã univitelina, é ainda mais sonsa, já que ignorar é uma espécie de egoísmo que justifica a brutalidade do ato. “Eu não sabia, então não fiz nada.”

O que tenho tentado fazer é vasculhar internamente meus ânimos; encarar, com medo mas obstinadamente, os corredores mais escuros da minha alma, criando um diagrama, sempre inexato e anárquico, de todos os acontecimentos que vivi, para oferecer essas experiências e conclusões em forma de arte. Se consigo realizar ou não a minha intenção? Não. Depois de tantos anos insistindo, de maneira quase maníaca, em defender não a minha opinião, mas o meu direito de tê-la – e tendo me utilizado de tantas estruturas para compartilhá-la –, ainda me impressiona ter de me explicar. Pior, constrange-me isso ainda ser necessário. Em minha arte, parece que devo anexar uma bula, uma espécie de pedido de desculpas, somente pela coragem de ser essa que faz o que quer, da maneira que quer, e paga um preço altíssimo por não se dobrar. Mesmo que inúmeras vezes eu mude de ideia, porque, é lógico, estou aprendendo e desaprendendo, como todos.

Em momento nenhum achei estar absolutamente certa. Mas, quando estou criando, sou possuída por uma enorme segurança, visto que, se não fosse assim, eu nada teria feito. Lembro que, quando deixei o programa Saia Justa, fiz a minha despedida com um discurso de formatura. Formei-me em “digo e desdigo”. Naquela época, fui muito agredida porque nunca estive nem um pouco interessada em parecer interessante, citando autores e máximas coletivas. Achava que deveria partilhar a minha liberdade, inclusive a de falar merda – coisa para a qual tenho uma técnica, e afeto. Eu sou livre! Não tenho rótulos, não tenho dono, não tenho patrão, não tenho nada que me impeça de mandar todo mundo se foder, caso eu queira. E às vezes acontece, porque devo me proteger.

Mulheres como eu incomodam muito. Não pela beleza, inteligência, posses, amores, mas porque não devem nada a ninguém. Por isso falo e faço o que quiser. Saiba, você, que agora está lendo este prefácio, que preferia não ter de escrevê-lo, pois ele acaba me levando para esse lugar, em que devo, mais uma vez, me explicar. Mas saiba também, querido(a) leitor(a), que ser livre é algo bastante trabalhoso. Não raro noto o ódio, a inveja, o nojo que causo, porque estou pouco me lixando para o que os outros pensam sobre mim – se estou agradando ou não, se tenho bons modos ou não, se pareço culta ou não, esperta ou não, engraçada ou não. Eu apenas decidi, ainda bem cedo, que, já que eu era estranha, geniosa e nada adorável, deveria ser assim. Tinha medo, sim. Medo por ser “diferente”; mas essa diferença não foi sequer uma escolha, nem algo que eu deva defender.

Então, fui ficando arredia, defensiva e atenta, mas iria ser o que eu quisesse. E ainda criança detectei o que queria mais do que tudo: ser livre. Livre da opinião dos outros, do que a sociedade iria pensar, do que um marido iria exigir, da opressão de ter que fingir amar a vida doméstica – odeio –, de ter que ir a reunião de pais, de condomínio, de ser obrigada a votar, de não poder xingar, trepar, errar, beber. Livre de qualquer coisa que me tirasse de mim. E esse sonho se realizou. Pode ter certeza que, de onde eu vim, ser livre era tão improvável quanto ser as- tronauta da Nasa.

Quando fui convidada pela Editora LeYa para escrever sobre o feminismo, primeiramente seria para a coleção “Politicamente Incorreto”. Logo notei que esse selo seria inapropriado, porque também quero estar livre desse “diagnóstico”. Não gosto de rótulos, apesar de reconhecer que a minha liberdade inspira, e não gosto de imaginar que seja somente às mulheres. Durante muito tempo evitei o termo feminista e, caia para trás, se o assumo agora é com um certo constrangimento. Porque me parece ser o “ismo” da moda. E acho muito sério o assunto, para depois o deixarmos cair no esquecimento, quando o empoderamento deixar de ser a palavra da vez. Palavra, essa, com que implico, porque a acho cafona e reduzida. Aceitei o convite da LeYa, entenda, porque foi me dada total liberdade. Tanto que o título Pós-F. contém uma ironia; poderia ser também “Pós-FY”. Afinal, falo como entendo ser uma mulher, no mundo atual, vivendo como uma, que não faz parte de nenhuma maioria, mas que vai com integridade e vigor nesse caminho contrário ao da fogueira. Sinto o cheiro do fogo, já estive perto dele muitas vezes, somente por ter sonhado e insistido. E, pasme, ter dado certo.

Há, no livro, inúmeras conversas que tive com Eugênia Vieira, minha editora pela quarta vez seguida. Fragmentos de entrevistas, roteiros, crônicas. A opção por essa estrutura se deu justamente para fugir ao tom acadêmico, recheado de legítimas citações de pensadoras feministas. Com respeito e gratidão, poderia enumerar uma lista enorme dessas pensadoras que me trouxe até aqui. Mas como comecei este prefácio, termino: não me interessa ser especialista no que já foi feito. Acho que todos devemos ler essas libertárias e concluir sobre o feminismo; não cabe a mim uma análise sobre essa ou outra autora. Mesmo porque o feminismo não foi feito somente por escritoras, intelectuais. Ele tem sido recriado por todas que, nos seus ofícios, se negaram a se especializar em agradar.

Por fim, ofereço Pós-F à minha filha Cecília Madonna. Não por algum motivo especial, mas porque ela pediu. Agradeço também a minha outra filha, Estela May, que, certa feita, disse que eu deveria, sim, me assumir feminista, mesmo entendendo que poder não ser nada me deixa mais livre. No entanto, sei que é importante estar atenta e forte, porque muitas mulheres ainda necessitam de ajuda. E eu o farei, da forma que quero, posso e sei.

No meu braço esquerdo tenho tatuado o verso de Madonna: “Do you know what it feels like in this world for a girl?” (Você sabe como se sente uma garota neste mundo?) Essa é a pergunta que ecoa desde que a tatuei, há muitos anos. Eu sei como me sinto. E, no livro, conto um pouco.

Texto adaptado do prefácio de Pós-F: Para além do masculino e do feminino (LeYa), o primeiro livro de não ficção de Fernanda Young.