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A história das mulheres do Brasil

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O historiador Paulo Rezzutti tem se especializado em revelar detalhes que os livros e narrativas mais tradicionais sobre diversos personagens da história do Brasil deixaram de fora. Em D. Pedro – A história não contada: O homem revelado por cartas e documentos inéditos, primeiro livro de Rezzutti publicado pela LeYa e ganhador do prestigiado Prêmio Jabuti, ele trouxe a público documentos e cartas inéditas sobre nosso primeiro imperador. Em D. Leopoldina – A história não contada: A mulher que arquitetou a Independência do Brasil, procurou desfazer os estereótipos que cercavam a imperatriz e dar à figura a real dimensão de sua importância como estrategista política e uma das articuladoras da independência de Portugal.

Agora, em Mulheres do Brasil, o autor se impôs um grande desafio. Partindo da constatação de que existe um padrão recorrente que apaga, reconta, deturpa ou diminui a participação das mulheres nos grandes episódios que marcaram a trajetória do país, Rezzutti se propôs a contar essa história. Desde o descobrimento, passando pela escravidão, capitanias hereditárias, guerras, revoltas e batalhas, até a atuação nos campos das artes e política, ele resgata narrativas incríveis e figuras extraordinárias sobre as quais sabíamos pouco ou sequer tínhamos ouvido falar, mas que tiveram relevância nos mais variados períodos históricos.

Confira a seguir um bate-papo com Paulo Rezzutti sobre os principais aspectos do livro, sua carreira e as dificuldades que enfrentou para resgatar essas histórias.

No lançamento Mulheres do Brasil, você parte do princípio de que as personagens históricas femininas não tiveram suas histórias e atuações devidamente registradas quando se trata de contar a história do nosso país. Em que momento de sua trajetória como pesquisador esse padrão de apagamento ou desconfiguração das biografias tornou-se evidente?

No meu primeiro livro sobre uma mulher, a Marquesa de Santos, eu vi que a memória de sua participação política como militante do partido liberal em São Paulo havia desaparecido por completo e ninguém se referia a isso. Para ver que o mesmo aconteceu com D. Leopoldina, sua contemporânea, foi um pulo. A área de atuação do homem é o ambiente externo, onde a política e as discussões públicas tomam vulto. A mulher, durante séculos, ficou confinada ao ambiente interno e foi considerada incapaz de lidar com questões maiores que afazeres os domésticos, o que é uma grande bobagem eivada por preconceito de gênero.

 

Esta não é a primeira vez que você se debruça sobre a história das mulheres. Poderia resgatar o que despertou seu interesse em começar a pesquisar e escrever sobre essas figuras? Como Mulheres do Brasilse insere em sua produção bibliográfica?

A primeira vez que eu despertei para o fato do apagamento de uma história humana foi por meio da genealogia das famílias paulistas escrito pelo genealogista Silva Leme. Ele registra os filhos que a Marquesa de Santos teve com o primeiro marido e com o segundo, mas os filhos que ela teve de maneira independente, sem vínculo matrimonial, com o imperador D. Pedro I não entram na sua genealogia. Aí percebi que o padrão genealógico adotado era exclusivamente patriarcal, o que interessava era a prole do marido e não a da mulher. Em relação à Leopoldina, como disse na resposta anterior, o que me chamou a atenção foi a questão do apagamento da importância política dela no processo da independência. Por conta disso comecei a colecionar casos em que a mulher entrava na história como um ícone e não como uma pessoa tridimensional, atuando em vários campos. Normalmente era um ícone devido ao seu corpo, quando esse era objetificado. Fiquei estarrecido ao constatar, por exemplo, que a famosa D. Beja, a “feiticeira do Araxá”, na realidade teve a sua história inventada para ser, anos depois de morta, garota propaganda de uma estação de águas termais.

Não somos um país conhecido pelo zelo na preservação de nossa memória. Se encontrar documentos e demais fontes que reconstruam a história de personagens masculinos já deve ser difícil, quais são as principais (ou possíveis) maneiras de resgatar a história das mulheres? Encontrar a documentação necessária para a produção do livro foi seu principal desafio?

Não foi um trabalho nada fácil. Quando se trata de um personagem masculino parece que tudo já está exposto e falado. Com a mulher é mais difícil encontrar o material, muitas vezes até mesmo por auto-censura ou imposição da família. Entretanto, eu vinha colecionando documentos já fazia algum tempo e outras informações eu consegui obter por meio da leitura e estudo de material acadêmico, invariavelmente produzido por mulheres, devidamente creditadas no meu livro.

 

Mulheres do Brasil é um livro que traz muitas surpresas, tanto ao oferecer detalhes obscurecidos sobre mulheres mais conhecidas, como ao resgatar figuras completamente apagadas dos livros de história tradicionais. Entre tantas informações e histórias extraordinárias, quais lhe chamaram mais atenção?

As surpresas existiram em todo o livro, mas acho que a questão das índias, como elas foram protagonistas, assim como várias negras, ex-escravas, e as mulheres brancas que governaram capitanias hereditárias e grandes fazendas e que não entram em nossa história de maneira alguma. Uma das questões que mais me interessaram foram as lutas das mulheres para conseguir um espaço nas artes plásticas vencendo o tabu do desenho do corpo nu. Em resumo, não foi bem uma mulher ou um grupo que me chamou a atenção. Acredito que o que mais me chamou a atenção foi o fato de que o preconceito de gênero ainda persiste em nossa sociedade e é basicamente o mesmo em seu discurso por mais de 500 anos.

 

Você poderia destacar, dentro da divisão proposta pelo livro, uma ou duas mulheres que mais o surpreenderam dentro de cada capítulo/ tema? 

No “mães do Brasil” sem dúvida alguma foi a Aqualtune a avó do Zumbi. O neto é exaltado, tem estátuas em São Paulo, Rio de Janeiro em Porto Alegre e outros lugares, e a avó é quase desconhecida, pouco falada fora do movimento negro e menos ainda no feminista. Ela foi uma princesa guerreira do Congo, aprisionada, que foi uma das líderes de Palmares. Nas “boas e más” destaco os grupos que lutaram por sua liberdade do julgo patriarcal e se tornaram mal vistas por isso. A história dos “recolhimentos”, onde muitas vezes se prendiam as mulheres, verdadeiros corpos sem suas vontades sendo levadas em conta, é bastante interessante. Em “heroínas e vilãs” me surpreenderam as mulheres esquecidas das nossas guerras, desde as batalhas pela independência do Brasil até a Guerra do Paraguai. A curiosa história de como o que conhecemos hoje sobre a baiana Maria Quitéria foi guardado e registrado por uma mulher daquela época. Nas “mulheres de poder e no poder das mulheres” destaco a viscondessa de Cavalcanti, uma importantíssima colecionadora e intelectual de seu tempo, assim como a imperatriz d. Teresa Cristina, envolvida com arqueologia, e igualmente uma colecionadora. Destaco também Bertha Lutz, que me surpreendeu, pois participou da criação da ONU e com contribuições importantíssimas. Há ainda Almerinda Farias Gama, uma sindicalista negra e pobre em plena constituinte de 1934, praticamente desconhecida. No capítulo “artistas e mecenas”, uma das minhas favoritas é a Pagu (Patrícia Galvão) e seu protagonismo ao ser a primeira mulher a desenhar história em quadrinhos, e a responsável pela vinda da soja ao Brasil. Laurinda Santos Lobo, que patrocinou diversos artistas como Villa Lobos e Júlia Lopes de Almeida, uma das maiores literatas do Brasil da Belle Époque, e que foi preterida de entrar na Academia Brasileira de Letras por ser mulher, também me chamaram a atenção. Entre as “transgressoras”, Eufrásia Teixeira Leite, a primeira mulher capitalista a ter acesso às bolsas de valores internacionais, fundadora da sociedade de amigos do Louvre, passando pelas mulheres que não queriam/querem ter filhos e por isso eram (e ainda são) vistas como devassas. Surpreende-me que até hoje as mulheres não tenham o controle sobre seus corpos, sendo este controle disputado pelo Estado e pela Igreja.

Nos últimos tempos, têm sido lançados livros que buscam resgatar a história de mulheres que realizaram grandes feitos, muitos deles voltados para crianças. Em sua opinião, qual é a importância de um título como Mulheres do Brasilno momento em que estamos vivendo, com o debate sobre gênero/ feminismo ganhando cada vez mais espaço?

Acho que é importante porque escancara o quanto o discurso patriarcal marcou a cristalização de diversos períodos históricos. Mostra a hipocrisia desse discurso e revela o quanto a mulher foi protagonista em diversas áreas, o que não é contado em nossos livros de história.

 

No início do livro você traz argumentos que defendem a validade de um trabalho sobre mulheres escrito por um homem. Existe nisso algum tipo de apropriação do lugar de fala das mulheres, para utilizarmos uma expressão muito em voga atualmente?

Desde que esse homem seja um aliado delas qualquer publicação é válida. O feminismo é uma luta, sem dúvida alguma, das mulheres, mas acredito que a aliança com homens com empatia por essa luta, e que combatem toda e qualquer discriminação, como a de gênero, pode ser válida. Não existem apenas homens no mundo, como não existem somente mulheres. Juntos, acredito eu, podemos caminhar para uma sociedade mais igualitária e menos patriarcal.

Para saber mais sobre Mulheres do Brasil e outras publicações de Paulo Rezzuti, clique aqui.