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Amigos falam sobre a coragem e a generosidade de João W. Nery, ícone da luta LGBT

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Em sua luta pela liberdade de gênero, João W. Nery conheceu muitas pessoas que se reconheceram em sua história e fez grandes amizades. Ele era considerado pelos amigos, especialmente pelos trans-homens, um grande pai, pois, com sua generosidade e afetuosidade, acolhia a todos. João sempre tinha um conselho para dar, uma experiência para dividir, tempo para ouvir. Sua luta seguirá nas mãos dos grandes amigos que deixou. A nova edição de seu emblemático livro Viagem solitária traz depoimentos de alguns deles – Jordhan Lessa, Benjamim Braga e Leonardo Peçanha –, que reproduzimos abaixo.

JOÃO W. NERY, PRESENTE!

João será para sempre lembrado no coração de quem o amou e admirou seu empenho na luta a favor do reconhecimento da liberdade de gênero com muita dignidade e honra. Sua coragem em se tornar um ícone desbravador e ousado trouxe voz e deu chance para que outros transmasculinos/homens trans como eu trilhassem de forma mais segura o caminho do autorreconhecimento. Hoje me reconheço e sou reconhecido como um homem trans, ou trans-homem como dizia João, e devo a ele os melhores anos da minha vida, que começaram quando eu já tinha 47 anos. João viajou por todo o Brasil fazendo palestras e promovendo discussões sobre liberdade de gênero. Ele se fez ouvir por médicos, psicólogos, historiadores, antropólogos, professores, políticos, religiosos, mas acredito que tocar o coração de mães, pais e famílias que passaram a entender e respeitar seus filhos e filhas trans, livrando-os muitas vezes do suicídio e da incompreensão, tenha sido sua maior obra.

Nosso primeiro encontro foi em agosto de 2013, quando ainda não sabia ao certo quem eu era. Mas, ouvindo o depoimento de João, me reconheci em sua história e, finalmente, me encontrei. Desse dia em diante até o dia de sua partida se passaram intensos cinco anos, nos quais tive a honra e o privilégio de conviver com ele para além daquele ser midiático e popular. João se doava em tempo integral a todos que o procuravam. Não conheço nenhum outro trans-homem que tenha “parido” tantos filhos de coração. O “paizão” João me ajudou a me encontrar e me ensinou a não perder o feminino que havia dentro de mim.

Nos últimos meses de sua vida, as visitas já não eram tão assíduas e pouco nos falávamos por telefone, mas, nas poucas vezes que estivemos juntos, nossas conversas preservavam o mesmo teor e a mesma fonte de reflexão e aprendizado. Eu não conseguia imaginar o meu mundo sem ele, esse meu mestre. Certa vez lhe disse que jamais morreria, pois estaria eternamente gravado na alma de cada pessoa trans que o conheceu, de longe ou de perto, pelas postagens e interações registradas nas redes sociais, em algum vídeo ou programa de TV que participou. Agora ele se foi e nos resta seguir com sua luta, não deixando que tudo o que ele conquistou seja apagado pelo tempo e por pessoas que tentam invisibilizar os transexuais. Cabe a nós zelar pela sua memória, trazendo sempre seu exemplo para que os mais novos entendam quem são verdadeiramente. Ele nos deixou um enorme legado e agora temos a responsabilidade de dar continuidade ao seu trabalho.

Jordhan Lessa

GENEROSIDADE E CORAGEM

Nery teve e ainda tem grande influência na luta por cidadania e dignidade de diversos homens trans e pessoas transmasculinas em nosso país.

Quando penso e reflito sobre a vida que tenho hoje, é difícil não pensar na generosidade de João. Sua luta poderia ter sido só sua, invisível. Mas João, mesmo com tantas adversidades, escolheu lutar publicamente pela causa, representando todos os transmasculinos e suas necessidades.

Arriscaria dizer que se hoje tenho uma identidade que corresponda a quem eu sou, se curso um doutorado numa universidade pública, se não precisei abandonar minha carreira, se fiz algumas mudanças no meu corpo de uma forma mais saudável e com mais segurança, tudo isso foi devido à luta de alguns homens trans em movimentos sociais junto a travestis e mulheres trans, mas em especial a João, que, sozinho, conseguiu se tornar visível para muitas pessoas, especialmente para mim.

Mesmo com diversos afazeres, João ainda guardava um tempo para os seus inúmeros “filhos”, incluindo a mim. Nunca esquecerei suas palavras de incentivo e seus gestos de amizade, como ter me indicado o Grupo Transrevolução, que teve um papel fundamental na minha socialização com outros trans e no meu suporte médico. Gratidão, João. Seu filho aqui segue sua luta.

Benjamim Braga

RECOMEÇO

Pai. Amigo. Irmão. Psicólogo. Professor. Ativista. Assim foi e sempre será João W. Nery. Ele e a Indianare Alves Siqueira, ativista transvestigenere, salvaram a minha vida na reunião que participei do Grupo Transrevolução num dos eventos de lançamento de seu livro Viagem solitária. Nesse dia, em 2012, eu finalmente compreendi minha identidade e pude “recomeçar”. Ao ouvir suas palavras, parecia que ele contava a minha história, e eu nunca tinha visto aquele homem antes. Nossas experiências tinham tanto em comum!

João me acolheu como um grande amigo e os nossos encontros eram sempre alegres. O mais divertido de todos era quando eu e outros amigos trans nos encontrávamos em sua casa. Nery adorava fazer pipoca e ficávamos com ele na cozinha por horas a fio, comendo pipoca e conversando sobre tudo, tendo reflexões, compartilhando ensinamentos.

Através daquele acolhimento, de tantas pessoas trans, e em especial de João, foi que eu percebi que deveria, de alguma forma, ajudar os meus pares. Voltei-me para o ativismo, com participação no movimento social organizado e também exercendo um pró-ativismo acadêmico como professor e pesquisador. “Juntos somos mais fortes”, dizia ele. Foi então que resolvi fazer parte da Liga Transmasculina Carioca João W. Nery, criada após sua morte com o intuito de ser um grupo de socialização e de seguir a luta por reivindicação de direitos dos homens trans e de pessoas transmasculinas. A Liga faz parte do legado que João nos deixou: a importância da luta por direitos e cidadania transmasculina no Brasil e pelo acolhimento aos homens trans.

Seguiremos sua luta pelos nossos direitos e pela nossa visibilidade. Sempre!

Leonardo Peçanha