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Leia o primeiro capítulo de “O menino que sobreviveu”, de Rhiannon Navin

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A vida real às vezes supera a ficção. Mas, desde que o mundo é mundo, a literatura nos ajuda a pensar, a entender, a aceitar. Em seu celebrado romance de estreia, O menino que sobreviveu, a escritora Rhiannon Navin apresenta uma história que começa em meio a um tiroteio numa escola. O narrador é Zach, de seis anos, que se escondeu num armário com a professora e alguns colegas. Ele sobreviveu, mas seu irmão mais velho foi uma das 19 vítimas fatais do atirador. “Ontem fizemos um monte de coisas que fazemos todas as terças-feiras, porque não sabíamos que hoje o homem com uma arma ia aparecer”, conta. A voz e o olhar de Jack, repletos da inocência, da ternura e da humanidade que tanto faltam aos adultos, são as únicas formas de curar o mundo ao seu redor. Um livro sobre a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.

O escritor Harlan Coben chamou O menino que sobreviveu de “uma estreia extraordinária”, enquanto o Library Journal o considerou “um dos melhores romances de estreia do ano”. Para a revista Marie Claire americana, o livro “mantém o leitor fisgado até a última frase”, enquanto, para o jornal The Washington Post, trata-se de “um triunfo… Zach, de apenas seis anos, entende mais sobre o coração humano que os adultos ao seu redor.”

O livro já está disponível nas lojas de todo o país. Compre on-line na nossa loja parceira, a Casa dos Mundos; na Amazon; na Livraria Cultura; na Livraria da Travessa; ou na Saraiva. Leia abaixo o primeiro capítulo da obra.

O DIA EM QUE O HOMEM COM UMA ARMA APARECEU

Depois, a coisa de que mais me lembrei sobre aquele dia em que o homem com uma arma apareceu foi da respiração da minha professora, a srta. Russell. Era quente e cheirava a café. O armário era escuro, tirando uma luzinha que entrava por uma rachadura na porta, que a srta. Russell mantinha fechada por dentro. Não havia maçaneta do lado de dentro, apenas uma peça de metal solta, que minha professora ficava segurando com o dedão e o indicador.

– Não se mexa, Zach – sussurrou ela. – Não se mexa.

Não me mexi. Mesmo que eu estivesse sentado no meu pé esquerdo e ele estivesse formigando, pinicando e doendo.

Eu sentia a respiração da srta. Russell na minha bochecha quando ela falava, e isso me incomodava um pouco. Seus dedos tremiam na peça de metal. Ela teve que falar muito com a Evangeline e o David, e a Emma, atrás de mim, porque eles estavam chorando e ficavam se mexendo.

– Estou aqui com vocês, crianças – disse a srta. Russell. – Eu vou proteger vocês. Psiu, por favor, fiquem quietos.

Nós continuamos ouvindo o som de TÁ TÁ TÁ do lado de fora. E gritos.

TÁ TÁ TÁ

Parecia muito com o som do jogo Star Wars que eu jogava no Xbox.

TÁ TÁ TÁ

Sempre três TÁs e depois silêncio de novo. Silêncio ou gritos. A srta. Russell dava uns pulinhos quando ouvíamos os TÁs e o sussurro dela ficava mais rápido.

– Não façam barulho!

A Evangeline estava com soluço.

TÁ Ic! TÁ Ic! TÁ Ic!

Acho que alguém fez xixi na calça, porque estava cheirando a xixi dentro do armário. Cheirava à respiração da srta. Russell e a xixi, e a casacos molhados, porque tinha chovido no recreio.

– Não brinquem lá fora hoje! – tinha dito a sra. Colaris.

Por acaso a gente era de açúcar?! A chuva não nos incomodou nem um pouco. Jogamos futebol, brincamos de polícia e ladrão, e nossos cabelos e casacos ficaram molhados. Tentei me virar e pôr a mão num deles para ver se ainda estava úmido.

– Não se mexa! – sussurrou a srta. Russell.

Ela trocou de mão para manter a porta fechada e suas pulseiras fizeram um barulhinho. A srta. Russell sempre usava um monte de pulseiras no braço direito. Algumas tinham pequenas medalhinhas penduradas que faziam ela se lembrar de coisas especiais, e quando ela saía de férias sempre voltava com novas medalhinhas nas pulseiras. Quando começamos o primeiro ano, a srta. Russell nos mostrou as medalhinhas novas e nos contou de onde eram. Havia uma, que ela trouxe das férias de verão, que era um barco. Era um barco bem pequenininho parecido com o barco de verdade em que ela andou para chegar perto de uma cachoeira imensa chamada Niagara Falls, que fica no Canadá.

Meu pé esquerdo começou a doer muito. Tentei me mexer só um pouquinho para que a srta. Russell não notasse.

Tínhamos acabado de chegar do recreio, colocado nossos casacos no armário e tirado o livro de matemática das mochilas quando o som de TÁ TÁ TÁ começou. Primeiro não foi muito alto – parecia que vinha lá do início do corredor, onde fica a mesa do Charlie. Quando nossos pais vêm nos pegar antes de acabar a aula, ou quando ficamos doentes e vamos para a enfermaria, os pais sempre param na mesa do Charlie e escrevem seus nomes num livro, e mostram a carteira de identidade, e pegam um crachá de visitante com uma fita vermelha que eles têm que pendurar no pescoço.

O Charlie é o inspetor de segurança da nossa escola, e ele trabalha aqui há trinta anos. Quando eu estava no jardim de infância, no ano passado, fizemos uma festa bem grande no auditório da escola para comemorar os trinta anos de trabalho dele. Um monte de pais veio também porque o Charlie já era o inspetor de segurança quando esses pais eram crianças e estudavam na nossa escola. A mamãe, por exemplo. O Charlie disse que não precisava de festa. “Eu sei que todo mundo me ama”, falou, e deu uma risada engraçada. Mas fizemos uma festa assim mesmo, e achei que ele ficou muito feliz. Ele colocou alguns dos cartazes que fizemos para a festa em volta da mesa dele no corredor e levou o resto para casa, para pendurar lá. O retrato que eu fiz dele estava bem no centro da parede na frente da mesa, porque eu desenho muito bem mesmo.

TÁ TÁ TÁ

Os sons de TÁ começaram bem longe. A srta. Russell estava dizendo quais exercícios do nosso livro de matemática eram para a gente fazer na sala e quais eram para a gente fazer em casa. O som de TÁ fez ela parar de falar e depois franzir a testa. A srta. Russell andou até a porta da sala e olhou pela janelinha de vidro.
– O que… – disse ela.

TÁ TÁ TÁ

Então ela deu um passo bem grande para trás, se afastando da porta, e disse “Merda!”. Disse mesmo. Essa palavra aí. E nós começamos a rir. “Merda.” Logo depois que ela disse isso, ouvimos uma voz pelo interfone que fica na parede, e a voz disse:

– Emergência, trancar as portas! Emergência, trancar as portas!

Aquela não era a voz da sra. Colaris. Quando a gente fazia treinamento de emergência, ela só repetia isso uma vez, bem devagar, mas aquela voz disse isso várias vezes e muito rápido.

De repente, o rosto da srta. Russell ficou branco, e a gente parou de rir porque ela estava muito esquisita e não estava sorrindo. O jeito do rosto dela me deixou assustado, e o ar não passava direito pela minha garganta. A srta. Russell ficou andando de um lado para outro como se não soubesse aonde ir. Depois trancou a porta da sala e desligou as luzes. Não havia sol naquele dia, estava chovendo, mas a srta. Russell foi até a janela e desceu as cortinas. Ela começou a falar muito rápido e sua voz parecia meio cortada e mais fina.

– Lembrem-se do que fizemos no treinamento de emergência quando trancamos as portas – disse ela.

Eu me lembrei que o treinamento de emergência “trancar as portas” era diferente do treinamento de emergência para incêndio. A gente não devia sair da sala. Tínhamos que ficar do lado de dentro, sem sermos vistos.

TÁ TÁ TÁ

Alguém do lado de fora, no corredor, gritou muito alto. Minhas pernas começaram a tremer.

– Vamos, crianças, todo mundo para o armário – mandou a srta. Russell.

Antes, quando a gente fez o treinamento de emergência “trancar as portas”, foi bem divertido. Fingimos que havia caras maus no corredor e ficamos dentro do armário por apenas alguns minutos até o Charlie abrir a porta da sala pelo lado de fora e a gente ouvir ele dizer “Sou eu, o Charlie!”, que era o sinal de que o treinamento tinha acabado. Agora eu não queria ir para o armário, porque quase todo mundo da sala já estava lá dentro e parecia muito apertado. Mas a srta. Russell colocou a mão nas minhas
costas e me empurrou.

– Depressa, crianças, depressa – disse ela.

A Evangeline e principalmente o David começaram a chorar e a dizer que queriam ir para casa. Senti vontade de chorar também, mas não ia chorar ali, na frente de todos os meus amigos. Fiz o truque que a vovó tinha me ensinado: apertar muito o nariz, na parte macia, com a ponta dos dedos, assim você não consegue chorar. A vovó me ensinou esse truque um dia, no parquinho, quando eu estava quase chorando porque alguém tinha me empurrado do balanço. A vovó me disse: “Não deixe que eles vejam você chorando.”

A srta. Russell colocou todo mundo dentro do armário, puxou a porta e ficou segurando daquele jeito. O tempo todo a gente conseguia ouvir o som do TÁ. Tentei contar na minha cabeça.

TÁ, 1, TÁ, 2, TÁ, 3

Minha garganta estava seca e coçando. Eu queria muito beber água.

TÁ, 4, TÁ, 5, TÁ, 6

– Por favor, por favor, por favor… – sussurrava a srta. Russell.

E depois falava com Deus e chamava ele de “Meu Deus”, e eu não conseguia entender o resto porque ela estava sussurrando tão baixo e rápido que achei que queria que só o “Deus dela” escutasse.

TÁ, 7, TÁ, 8, TÁ, 9

Sempre três TÁs e depois uma pausa.

A srta. Russell de repente olhou para cima e disse “Merda!”, de novo.

– Meu celular!

Ela abriu a porta só um pouquinho e, quando não havia nenhum som de TÁ, abriu a porta toda e correu pela nossa sala com a cabeça baixa. Depois voltou, correndo também, para o armário. Fechou a porta de novo e me mandou segurar a peça de metal dessa vez. Eu fiz isso, apesar dos meus dedos doerem e de ser difícil manter aquela porta pesada fechada. Tive que usar as duas mãos. As mãos da srta. Russell tremiam tanto que o celular pulava enquanto ela tentava colocar a senha para desbloquear. Mas ela sempre colocava a senha errada, e quando você coloca a senha errada no celular os números na tela tremem e você tem que começar de novo.

– Vamos lá, vamos lá, vamos lá… – disse ela, e finalmente conseguiu colocar a senha certa.

Eu vi qual era: 1989.

TÁ, 10, TÁ, 11, TÁ, 12

Vi a srta. Russell digitar 911. Quando ouvi uma voz atender a ligação, ela falou:

– Oi, sim, estou ligando da Escola Fundamental McKinley. Em Wake Gardens, Rogers Lane.

Ela falava muito rápido, e com a luz que vinha do celular pude ver que ela tinha cuspido na minha perna um pouquinho. Tive que deixar o cuspe lá porque as minhas mãos estavam mantendo a porta fechada. Não podia limpar, mas fiquei olhando para o cuspe que estava na minha calça, uma bolha de cuspe, bem grande.

– Tem um homem com uma arma atirando aqui na escola, ele é…

Tá bom, vou ficar no telefone com você.

Para nós, ela sussurrou:

– Alguém já tinha avisado.

Um homem com uma arma. Foi o que ela disse. E depois disso, tudo o que eu pensava na minha cabeça era “um homem com uma arma”.

TÁ, 13, um homem com uma arma

TÁ, 14, um homem com uma arma

TÁ, 15, um homem com uma arma

Estava muito quente no armário e eu sentia dificuldade para respirar, como se o ar lá dentro tivesse acabado. Eu queria abrir a porta um pouquinho para deixar ar novo entrar, mas estava com medo. Podia sentir o meu coração batendo numa supervelocidade dentro do meu peito, como se ele quisesse sair correndo pela minha boca. O Nicholas, que estava perto de mim, estava com os olhos fechados muito apertados e fazia barulho, respirando bem rápido. Ele estava usando muito ar.

A srta. Russell estava com os olhos fechados também, mas respirava mais lentamente. Senti o cheiro de café quando ela fez um “Aaaaaaahh!” para soltar o ar bem devagar. Então ela abriu os olhos e sussurrou para a gente de novo. Ela disse o nome de todo mundo.

– Nicholas, Jack, Evangeline… – falou. E foi muito bom quando ela disse: – …Zach, vai ficar tudo bem.

Depois disso ela falou para todos nós:

– A polícia já chegou. Eles vieram nos ajudar. E eu estou aqui com vocês.

Eu estava contente por ela estar ali com a gente, e a voz dela fez com que eu não ficasse tão assustado. O cheiro de café não me incomodava mais tanto assim. Fiquei fingindo que era o cheiro da respiração do papai de manhã, quando ele estava em casa para tomar café com a gente. Provei café uma vez e não gostei. Tinha um gosto muito quente e muito velho, ou coisa parecida. O papai riu e disse:

– Que bom, porque atrapalha o seu crescimento.

Não sei o que isso quer dizer, mas queria muito que o papai estivesse aqui agora. Mas ele não está. Só estão a srta. Russell, a minha turma e os sons de TÁ lá fora…

TÁ, 16, TÁ, 17, TÁ, 18

…cada vez mais altos, e os gritos no corredor, e o choro aqui dentro do armário. A srta. Russell parou de falar com a gente e voltou a falar com a pessoa no celular.

– Meu Deus, ele está se aproximando. Vocês estão vindo?? Vocês estão vindo?? Duas vezes. O Nicholas abriu os olhos e disse “Ai!” e vomitou.

Na camisa dele, e um pouco do vômito foi parar no cabelo da Emma e na parte de trás do meu tênis. A Emma deu um gritinho agudo bem alto, e a srta. Russell tapou a boca da Emma com a mão. Ela deixou o celular cair, e ele caiu bem no meio do vômito no chão. Pela porta pude ouvir as sirenes. Sou muito bom em dizer que sirene que é, a dos bombeiros, a da polícia, a da ambulância… Mas agora ouvi tantas do lado de fora que não pude diferenciar… Estavam todas misturadas.

TÁ, 19, TÁ, 20, TÁ, 21

Estava muito quente e úmido lá dentro e cheirava mal, aí comecei a me sentir meio tonto e enjoado. E aí de repente ficou tudo em silêncio. Não ouvi mais nenhum TÁ. Apenas o choro e o soluço dentro do armário.

Mas AÍ vieram TONELADAS de TÁs, que pareciam estar bem do nosso lado, um monte deles de uma só vez, e barulhos muito altos, de alguma coisa quebrando e caindo. A srta. Russell gritou e cobriu as orelhas, a gente gritou e cobriu as orelhas. A porta do armário abriu, porque larguei a peça de metal, e a luz entrou no armário e meus olhos doeram. Tentei continuar a contar os TÁs, mas eram muitos. E depois pararam.

Tudo ficou completamente quieto, até a gente, ninguém mexeu um músculo. Era como se nem estivéssemos mais respirando. Ficamos assim por muito tempo – quietos e em silêncio.

E aí alguém apareceu na porta da nossa sala. Nós ouvimos a maçaneta girando, e a srta. Russell soltou o ar em pequenos sopros, tipo “puf, puf, puf ”. Alguém bateu na porta e a voz de um homem perguntou bem alto:

– Tem alguém aí?

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