MENU

Mulher-Maravilha: Amazona, heroína, ícone – por George Pérez

postado em

Icônico ilustrador escreve sobre Mulher-Maravilha: Amazona, heroína, ícone

 

Ela nasceu do barro numa ilha paradisíaca. Para sua mãe, a rainha, ela era, quase que literalmente, um presente dos deuses. Em meio às Amazonas de Temiscira, ela viria a ser conhecida como Princesa Diana.

Mas, no mundo além do seu, ela ficaria conhecida como Mulher-Maravilha.

Quando William Moulton Marston – escrevendo sob o pseudônimo Charles Moulton – e o ilustrador H.G. Peter apresentaram a Mulher-Maravilha nas páginas da Sensation Comics, em 1941, eles dificilmente previam que um livro como o livro Mulher-maravilha: Amazona, heroína, ícone  poderia vir a existir. Será que algum dia Marston imaginou que sua singular criação, a primeira super-heroína das histórias em quadrinhos – um amálgama de fantasia, patriotismo norte-americano, mito ancestral, ficção científica e até alguns toques não tão sutis de libertinagem, num traje estrelado –, ainda estaria em circulação hoje em dia, atraindo tanta atenção, devoção e, ouso dizer, reverência?

Sim, eu disse reverência. Nas décadas que se seguiram desde que trabalhei pela primeira vez como autor de algumas aventuras da Princesa Amazona, descobri quão fervorosamente leais são seus fãs, quão inspiradora a personagem tem sido para a vida deles. Isso, é claro, pode parecer um pouco surpreendente para aqueles que não leem histórias em quadrinhos. Para esses leigos, a Mulher-Maravilha provavelmente é vista como pouco mais do que a versão feminina do Superman. Porém, para os verdadeiros fãs da personagem, ela sempre significou muito mais. Com uma história tão longa e variada quanto a de Diana, não é surpresa que ela tenha adquirido tantos significados e deixado tantas pessoas maravilhadas (sem trocadilhos).

Os desenhos estilizados de Peter se encaixaram perfeitamente no estilo narrativo singular de Marston. Combinados, seus esforços criativos produziram todos os elementos que um dia viriam a caracterizar o mundo de Diana: as Amazonas, Steve Trevor, Etta Candy, o jato invisível, o laço da verdade, balas e braceletes, sua identidade secreta como Diana Prince (junto com os óculos estilo Clark Kent). Ela enfrentou alguns vilões bastante peculiares, e também muitas vezes bizarros; enfrentou até os nazistas, refletindo a época em que aconteceram suas primeiras aventuras. Essa foi a Era de Ouro da Mulher-Maravilha, a versão afetuosamente acolhida por aqueles com idade suficiente para tê-las lido em primeira mão ou por historiadores que descobriram essas aventuras anos depois.

Após a morte de Marston e de Peter, as histórias da Mulher-Maravilha tiveram continuidade sob a liderança do roteirista Robert Kanigher e do ilustrador Ross Andru. Os elementos característicos do universo de Diana foram redefinidos, e outros, novos, foram adicionados. Com o tempo, essa versão, a qual mais tarde seria chamada de Era de Prata da Mulher-Maravilha, tornou-se a Mulher-Maravilha oficial para toda uma geração. Essa foi a Mulher-Maravilha deles – e também a minha.

Outros marcos se seguiram com a chegada de muitos criadores, que deram suas próprias interpretações, únicas e diversificadas, à personagem – incluindo deixá-la sem poderes e transformá-la numa aventureira à la Emma Peel. A despeito da natureza radical dessa mudança, a personagem ainda era, em sua essência, a Mulher-Maravilha, com a mesma história pregressa, mesmo que tal história não fosse utilizada como recurso narrativo. Eu gostava bastante dessa fase. Também foi a minha Mulher-Maravilha – apesar de eu realmente sentir falta do antigo uniforme estrelado.

Nos anos 1970, foi lançada uma versão da Mulher-Maravilha que realmente trouxe a personagem à vida como nenhuma outra havia feito antes. Para muitos, seria o primeiro contato com a Princesa Amazona. Quando a bela atriz Lynda Carter apareceu pela primeira vez na televisão, em 1975, vestindo aquele uniforme icônico, ela popularizou o nome da Mulher-Maravilha. A maioria dos elementos que caracteriza a personagem estava lá, da Ilha Paraíso ao jato invisível, das Amazonas a Steve Trevor. A série até introduziu um detalhe próprio, o “rodopio da Mulher-Maravilha”, durante o qual Diana Prince se transformava na super-heroína. Para uma nova geração de fãs – sim, me incluindo aqui, mais uma vez –, aquela era a Mulher-Maravilha: amorosa, leal, poderosa, corajosa e inspiradora.

Nos quadrinhos, a Mulher-Maravilha viria a recuperar seu uniforme e passaria por muitas releituras e redirecionamentos, até que, em 1987, me foi dada a oportunidade de fazer com a personagem o que não havia sido permitido a nenhum outro criador de histórias em quadrinhos. Pude recomeçar do zero, sem os impedimentos de uma continuidade frequentemente contraditória na longa trajetória de publicação da princesa. Eliminei o que achava que não funcionava e retrabalhei alguns dos elementos mais icônicos que, caso fossem eliminados, poderiam acabar diluindo algumas das características que definiam a personagem. Também dei a ela um novo propósito. Ela seria uma embaixadora da paz, sob o juramento de trazer o esclarecimento e a inspiração ao mundo dos homens. Fico grato por essa versão ter sido tão bem-sucedida e por ser considerada, dessa vez literalmente, a minha Mulher-Maravilha – e, ainda, para outra geração de fãs, a Mulher-Maravilha deles.

Porém, o mito da Mulher-Maravilha é muito mais profundo. Posteriormente, muito tempo depois de eu ter deixado a série, muito da história pregressa e dos elementos da personagem que eu havia removido seriam reintroduzidos e reinterpretados. A história e o legado continuam a se entremear, conforme cada geração reivindica sua própria Mulher-Maravilha. Os desafios da personagem se tornaram mais intensos, tanto física quanto espiritualmente, de formas que William Moulton Marston talvez nunca tenha sonhado. E diante de tudo isso, ela sobrevive – e prospera.

Para os fãs, a Mulher-Maravilha se tornou mais do que uma personagem. Ela é a soma de muitas partes.

Ela é uma amazona, uma super-heroína, uma embaixadora, uma espiã, uma guerreira. Personificação da verdade, defensora dos deuses e emissária da paz.

Filha amorosa, amiga confiável, protetora inabalável e formidável inimiga.

Ela é Diana, Princesa de Temiscira.

Mulher-Maravilha.

Ícone.

Texto adaptado do prefacio do livro Mulher-Maravilha: Amazon, heroína, ícone, de Robert Greenberger (LeYa). 


 

Um dos mais populares e celebrados artistas dos quadrinhos dos últimos 30 anos, George Pérez nasceu em Nova York em 1954. Foi responsável pela revitalizarão da Mulher-Maravilha nos anos 1980 e esteve à frente de diversas histórias clássicas da Marvel e da DC, como Os Vingadores, X-MenOs Novos Titãs.