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Trecho de Elza, biografia de Elza Soares escrita por Zeca Camargo

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Elza é a aguardada biografia oficial e definitiva de uma das maiores cantoras de todos os tempos e ícone cultural brasileiro. Nesta narrativa – acima de tudo, uma grande história oral–, Zeca Camargo resgata a trajetória de Elza Soares, da infância pobre ao sucesso, consagrada em discos que marcaram a música brasileira e seguem cativando gerações de fãs. Compartilhamos abaixo o trecho inicial da obra.

O início de zilhões de zumbidos

Ela precisava de um “Z” no destino e ganhou um logo quando nasceu: foi batizada Elza. Foi seu primeiro zumbido, de zilhões que viriam depois – e ainda vêm. Que outro nome poderia ser mais adequado para a mulher que transformou em som a sua fúria, fúria que em sua trajetória não é só sinônimo de ira, mas também de paixão? Esta é a história da Elza que zombou da ziquizira, chamou pra zoeira, tirou da zica e da dor, prazer e luz. Fez zunir até a letra “x”: cobriu-se de êxitos, deslumbrou os palcos com exuberância, sobreviveu ao exílio… E mais: zelou por seus amores, zangou-se com o que não achava certo, ficou zonza com as tragédias pessoais. De cada uma delas, saía meio zen e retomava o caminho que percorre até hoje – nunca em linha reta, mas ziguezagueando como lhe convém.

O próprio caminho titubeante da letra que fez de um simples pronome um nome maior contém poucas reviravoltas, insuficientes para contar uma história como a desta mulher: Elza Gomes da Conceição, ou melhor, Elza Soares. Ou seria mais justo colocar tudo no plural? São muitas histórias, isso sim. Para alguém que sempre evitou a linha reta, aplicar uma só narrativa não parece bastar. E a primeira pergunta que devemos fazer é: de quantas Elzas vamos falar?

Daquela que morou refugiada na Itália, procurando um novo sentido para sua carreira e para seu amor? Daquela que achou que estava cega num culto religioso nos Estados Unidos? Daquela que perdeu dois filhos dos seis que gerou ainda adolescente? Daquela que hipnotiza, quase aos 90 anos, uma plateia – na sua maioria, com apenas uma fração da sua idade? Daquela que escondia da mãe que cantava nas boates da zona sul carioca? Daquela que encontra amor depois de sete décadas de vida num coração de vinte e poucos anos? Como você pode imaginar, são todas uma só – e aí está o desafio não apenas para quem decide contar sua vida como para quem está ávido para mergulhar nas suas histórias: toda vez que mirarmos num só ponto estaremos perdendo não apenas o foco, mas a essência de uma figura maior. Jamais plana – um poliedro.

Por isso, a vida de Elza pode começar a ser contada de qualquer ângulo, porque, como num universo quântico, todas as suas fases estão interligadas, comunicam-se entre si. Nesta narrativa – que é, acima de tudo, uma grande história oral –, o tempo e a cronologia se confundem e, finalmente, desistem de se impor sobre aquela senhora sentada no trono de um grande palco. Que é exatamente a mesma que um dia estava num terreno baldio nas redondezas de sua casa e foi lambida pela vaca mais brava da vizinhança.

Elza brincava sozinha no quintal – a mãe sempre ocupada em lavar roupas para fora, ajudando na renda da família. O pai trabalhava na fábrica têxtil de Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro, onde morou ainda pequena. Elza nasceu em Padre Miguel, mas o trabalho do pai na icônica Fábrica de Tecidos Bangu – hoje um shopping center que reflete e absorve o ritmo dinâmico desse bairro do subúrbio do Rio – fez com que sua família se mudasse para uma casa simples naquela região. E era ali que a menina de quatro anos brincava, quando uma vaca que andava solta aterrorizando a vizinhança se aproximou.

Não fosse pelo barulho feito por sua mãe – e mais estridentemente por sua severíssima avó Cristina, mãe da sua mãe –, o episódio talvez nem tivesse registro na memória de Elza. Para aquela garota que andava livre pelas ruas e casas dos vizinhos, a chegada do animal não pareceu nada espetacular. Tanto que nem se deu conta da vaca ao receber as primeiras lambidas no rosto – não se preocupou nem mesmo parou de brincar, mergulhada na sua imaginação infantil, provavelmente um pouco mais fértil que a da média das outras crianças.

Elza não se sentiu ameaçada, pelo contrário: era como se fosse acariciada (ungida?) por aquela língua, indiferente à fama daquela vaca, de ser um dos animais mais bravos da região. A gritaria começou já forte, num apelo para acudir aquela menina, sem assustar demais o animal. A situação era perigosa, mas só para quem olhava de longe. Elza continuava brincando desatenta e foi com certa surpresa que se viu nos braços da mãe, que se aproximou de repente, tirando sua filha dali.

Só muito mais tarde, Elza veria aquilo como uma benção. O episódio aconteceu antes que ela começasse a ter visões – “mensagens” que ela diz ter recebido durante toda sua vida, e continua recebendo até hoje. Mas este foi, sem dúvida, dentro da sua história pessoal, o primeiro de muitos “chamados”, de inúmeros “sinais”. Teria sido talvez um simples encontro entre uma criança e uma vaca, se, algum tempo depois, ela não experimentasse um encontro ainda mais inexplicável – a primeira conversa sobrenatural de uma série que Elza trata como eventos reais e faz questão de dizer que foi algo determinante na sua trajetória.

Trecho inicial de Elza, biografia de Elza Soares escrita por Zeca Camargo.