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Para ler o Rio com olhar de matuto – por Márcio Vassallo

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Organizador explica como foi juntar contos inéditos de autores contemporâneos e clássicos de Machado, Drummond e Lima Barreto em antologia que será lançada nesta quarta no Rio

 

Não me lembro do dia em que vi o mar pela primeira vez. Nasci de cara para ele, em Copacabana. Quando ainda nem sabia falar, a praia já era o meu quintal, onde o meu pai cavava comigo na areia para chegar até o Japão, e a minha mãe me ensinava a reparar beleza em cena que ninguém vê.

Até hoje, ainda desejo que nunca tivesse visto o mar, para que um dia pudesse ter olhado para ele com o olho cheio de susto, sobressalto e estranheza.

Olhar para tudo o que há de mais conhecido com olho de assombro e descoberta é uma das coisas que mais me dão prazer na vida.

Mais do que uma vontade de olhar para tudo sem parar, ou de parar só para olhar, andar pelo Rio de Janeiro é ver o que me rodeia, sem descanso, mesmo quando atravesso pela milésima oitava vez a minha praça, perto de casa, longe dos cartões-postais, olhando com demora uma moça que desce no escorrega sem nenhuma criança por perto; um homem que só toca gaita quando chove; um vendedor de vassouras com voz de tenor.

Perturbado pelas belezas da cidade, o poeta Mario Quintana disse uma vez que o que mais gostava no Rio era dos túneis, porque nos túneis ele descansava das paisagens.

Convidado pela Casa da Palavra para organizar uma antologia literária com o Rio de Janeiro de cenário, encomendei a nove escritores que escrevessem histórias atravessadas pelo universo da infância, da memória, da fantasia, da contemplação, do reparo amoroso; e que tivesse o Rio como pano de fundo. Foi assim que nasceu No fundo de doze histórias corre um Rio. E a cada texto que recebi para fazer essa antologia, tive uma profunda vontade de túnel, feito o Quintana, para descansar de tanta poesia que chegava à minhas mãos.

Enquanto recebia esses manuscritos inéditos, parei para olhar muitos textos já publicados de escritores inesquecível, com cenas de suas andanças pelo Rio. Nessas andanças, entre outras, encontrei Machado de Assis escutando o sineiro de Glória, Lima Barreto comemorando a liberdade no Campo de São Cristóvão, e Carlos Drummond de Andrade levando um amado hóspede ao Galeão. Assim, já tinha três textos para o livro.

Passei tardes inteiras com o Drummond, o Machado e o Lima, sem vontade de largar deles e de tudo o que mais me mostravam com as suas frases de virar fatos pelo avesso e puxar encantamento do que é aparentemente banal e sem importância.

Mas não queria passar as tardes só com escritores consagrados e lindos textos que já haviam sido publicados. Desde o início, pensei em juntar autores de estrada comprida com revelações que estão no começo das suas caminhadas literárias.

Desse modo, convidei para participar desse livro seis consagrados nomes da literatura brasileira e três brilhantes revelações que acompanho de perto, duas delas estreantes.

Então, conversei com alguns dos muitos autores que me seduzem, me perturbam e me desorientam com seus escritos, e pedi que escrevessem textos especialmente para a obra.

Foi assim que Marina Colassanti, João Anzanello Carrascoza, Stella Maris Rezende, Maria Ribeiro, Flávio Carneiro, Anna Claudia Ramos, Susana Maria Fernandes, Isabela Borges e Vivian Wrona Vainzof toparam escrever histórias, com o Rio no fundo, misturadas de fantasia e memória.

O quanto a memória tem de fantasia? O quanto a fantasia tem de memória? Sobretudo nesse caso, ainda mais irresistível do que saber é imaginar.

Bem, fantasias e memórias à parte, ou incluídas, a realidade é que, depois de ler os textos da Marina, do João, da Stella, da Maria, do Flávio, da Isabelle, da Ana Claudia, da Vivian e da Susana, fique com o pensamento povoado de pessoas com mar por dentro, gente com queda para alargar horizontes, vistas de dar troço no coração, amizades cortadas por um fio, bicicletas de subir escadarias, chuvas que falam baixo, calçadas que cantam, bailarinas de parar olho de poeta, casas que emudecem para sempre. Depois, voltei a olhar os passos do Drummond, do Lima e do Machado. E, diante desses doze escritores, emudeci uma tarde toda, só para escutar os meus silêncios mais íntimos, mais urgentes, mais essenciais, mais irresistíveis.

Atravessar o Rio, entre tantas palavras de abrir escuta, me deu fissura de ler e reler ainda mais a minha cidade, com queixo caído de matuto arrebatado, como se jamais tivesse olhado na cara dela.

Texto publicado originalmente no prefácio do livro No fundo de doze histórias corre um Rio, organizado por Márcio Vassallo (Casa da Palavra).