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“Por que você não experimenta seu corpo antes?”, por Fernanda Young

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Autora do livro Pós-F: Para além do masculino e do feminino, a escritora Fernanda Young vai estrelar como atriz, ao lado de Fernanda Nobre, Ainda nada de novo, que estreia em setembro no Centro Cultural SP. A peça acompanha um longo dia de ensaio, com uma diretora e sua atriz principal prestes a filmar uma nova obra. O amor, o desejo e a perversidade da relação entre as duas personagens são evidenciados num tumultuado processo de criação artística. Ainda nada de novo tem texto de Carlos Canhameiro e direção de José Roberto Jardim.

Assim escreve Fernanda Young em Pós-F, que ela lançou pela LeYa: “Sobre a minha sexualidade, eu às vezes consigo perceber que não estou pensando como uma mulher, e acredito que esteja apenas exercitando um pensamento puro – noto que alcanço um descolamento do meu gênero. E isso é bom, porque é isso que me interessa.”

Abaixo, leia na íntegra o capítulo “Por que você não experimenta seu corpo antes?”, em que a autora debate a sexualidade.

Por que você não experimenta seu corpo antes?

Como disse aqui, eu já fui muito masculina e, por muito tempo, rejeitei o feminino em mim. Mas, quando penso nas pessoas que operam seus corpos para mudar de sexo, acho uma precipitação. A sexualidade não precisa de nada disso. Esse discurso de que as pessoas nascem com uma condição que não é a delas – uns chamam de condição, outros de bênção –, enfim, acho, definitivamente, a mudança do corpo algo muito precipitado. Por que não experimentar o seu corpo antes e descobrir o seu potencial?

O que quero dizer é: seja antes – e apenas depois de ser esse corpo, mude de opinião. Quer deixar o cabelo crescer? Pode deixar o cabelo crescer, antes de qualquer coisa. Eu, infelizmente, acabo sempre pensando como mãe. Por mais que tenda a condicionar, inevitavelmente, minhas filhas a algumas coisas, e meu filho a algumas outras coisas, esse politicamente correto dos brinquedos assexuados, das cores, pelo amor de deus, é muito louco não poder brincar de boneca! Eu gosto da ideia de deixar eles crescerem com liberdade de escolha. Se gosta de laço, põe laço. Se não gosta, basta tirar a porra do laço. Eu, por exemplo, nunca fui uma criança que gostasse de brincar de carros. Mas, também, nunca me impediram de brincar de carro. Hoje adoro carros. Não se trata de uma condição, e, sim, de vontades.

Todo mundo sabe que eu já tive namorada. Meus filhos têm padrinhos gays, e eu nunca tive problema nenhum com isso. Inclusive no meu livro O efeito Urano, falo da questão dessa mulher que se apaixona por outra e que acha que fez uma grande merda. O efeito Urano foi uma intenção minha de falar da sexualidade das mulheres entre elas, que, na época, ainda não era discutida como hoje em dia é. O que percebo atualmente é que as mulheres, no geral, tendem a assumir a bissexualidade. E isso mostra que o corpo feminino é tão potente no seu erotismo, que esse é um caminho natural. Em O efeito Urano, peguei muito bem essa questão, acho até que fui visionária.

Não vejo, portanto, problema nenhum, nem modernidade, em se experimentar a sexualidade. Agora, não vou ficar questionando o estilo da roupa de meus filhos, ou o corte de cabelo, por exemplo, isso acho que é uma bobagem muito grande. Não chega nem a ser a negação de um fato. Se uma pessoa não quer usar um laço, não deve usar o laço – isso não quer dizer absolutamente nada. Mas vira conflito; e pessoas morrem por causa disso. Muitas vezes, a partir de uma pequena escolha momentânea, a pessoa deve definir se é gay ou se é hétero. E aquele momento pode, no dia seguinte, não significar mais nada para aquela pessoa. A vestimenta não é nada. Ou talvez, quando muito, seja um estado transitório. Visto uma roupa sexy e talvez me sinta dessa forma naquele momento. Posso usar uma fantasia e atuar nela.

A sexualidade de uma pessoa é tão própria, tão pessoal, mas estamos numa sociedade em que tudo precisa ser contado – à família, às redes sociais – e, por fim, julgado. E, incrivelmente, em pleno século XXI, homossexuais ainda são mortos ou tiram a própria vida. Daí, voltamos ao ponto, será o feminismo a grande discussão, ou simplesmente o outro? O respeito às escolhas do outro? Lembrando que o outro é um ser único e a quem devemos todo o respeito.

A quantidade de meninos que são agredidos por serem gays… eu me preocupo muitíssimo com eles. As meninas me preocupam sempre, sempre irão me preocupar. Mas, imagina, o cara ser gay no lugar mais grosseiro, inóspito e machista do Brasil, sem nenhum acesso à cultura. Imagina o que isso vai causar. Está vendo a fragilidade do assunto? A discussão não pode ser mais raspar ou não raspar debaixo do braço. Isso, por acaso, vai destituir o meu valor como mulher e como potência, se eu decidir raspar, ou não, debaixo do braço? Tenho uma filha que não raspa. Eu mesma passo temporadas sem raspar. E daí? Não me diz respeito em nada. Não é algo que vou questionar se é certo ou se é errado.

Hoje em dia sabemos que é preciso pensar antes de se dizer “o” fulano, porque ele pode ser “a” fulana. E estamos usando agora o artigo “e”. O “e” de “fulane”. E, de repente, se tornou uma exigência que as pessoas acertem o artigo do outro. Eu não quero ter medo de como me refiro ao outro. Sendo homem, mulher, uma entidade híbrida, ou qualquer outra designação, que, bem sei, jamais irei decorar. Não quero pensar precisamente sobre isso, embora entenda que o artigo “e” compreende as potencialidades sexuais que temos em nós. Posso ter pau. Posso não ter pau. Posso ter pau num momento específico e não ter pau no outro. Mas todos temos cu – e considero esse um pensamento razoável. Todos temos cu, ou seja, em algum ponto, somos todos iguais.

Sobre a minha sexualidade, eu às vezes consigo perceber que não estou pensando como uma mulher, e acredito que esteja apenas exercitando um pensamento puro – noto que alcanço um descolamento do meu gênero. E isso é bom, porque é isso que me interessa. Outras vezes realmente noto que a minha condição feminina está incluída naquele pensamento. Por motivos específicos, com dores que são minhas, dores do meu eu feminino e que falam sim em nome do sexo feminino. Mesmo assim, eu penso tratar disso, da condição do feminino, sem excluir o leitor e o espectador masculino. Porque creio que todos nós temos a potencialidade do feminino e do masculino que deve ser bem trabalhada. Esse é o grande encontro, você ter o corpo e a alma feminina e lidar com o masculino, Vênus com Marte. Conseguir a expressão dos dois, conseguir que homem e mulher trabalhem juntos num único ser. Isso é muito sofisticado. Maliciosamente, não é do interesse de ninguém que isso seja pensado. Em tudo, a grande maldade é a ignorância. E, sem sombra de dúvidas, concretamente, a ignorância é proposital.

Esses conflitos todos da luta dos sexos, esses conflitos da luta entre homem e mulher, ainda sim poderiam ser evitados se tivéssemos uma consciência muito mais sofisticada, tanto da psicanálise quanto espiritual. Não por meio do que pregam as religiões, mas da noção de que somos de fato todos iguais. Porque somos manifestações únicas de um jogo lindo de consciência,quer você chame de Deus ou não. Mas isso não interessa. Não seria rentável pensar assim. E tudo o que não interessa é o tempo inteiro descartado ou considerado balela. E os discursos que são muito mais lucrativos e que são considerados mais interessantes, eles surgem e sempre apresentam uma grande briga, seja entre os sexos, ou mesmo entre religiões. Sofisticado seria, simplesmente, experimentarmos, sem pré-requisitos.