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Precisamos falar sobre falsas acusações de estupro – ou sobre como as mulheres ainda são desacreditadas

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Nossa assistente editorial escreve sobre o livro Falsa acusação: Uma história verdadeira

 

por Mariana Bard

Antes de tudo, preciso avisar que este texto é, infelizmente, um gatilho. Para quem não sabe, gatilho é um termo que se popularizou na internet e significa qualquer coisa que, assim como o mecanismo que dispara uma arma, acaba acionando um processo ou uma reação numa determinada pessoa quando ela vê ou lê algo. Aqui, o gatilho é para situações de violência sexual.

Uma mulher diz que foi estuprada e imediatamente começa a ser questionada. Sua história é vista e revista com grossas lentas de ceticismo, como se o ouvinte estivesse realmente em busca do buraco que faça aquela trama ruir, deixar de fazer sentido. Mais do que isso: procuram-se elementos que mostrem que a mulher é indigna de ser uma vítima. Será que você não está exagerando? Será que não interpretou mal? Hum, e que roupa estava usando? Pô, mas você não estava bêbada?! Pois é, a cultura do estupro é forte e está enraizada na nossa sociedade.

Falar sobre crimes sexuais, sobretudo sobre estupros, é sempre delicado. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2017 houve mais de 60 mil casos de estupro no Brasil, um número alarmante, mas que esconde uma realidade ainda mais assustadora: em razão de todo o estigma social que envolve a violência sexual, e também de a maioria das vítimas serem crianças, o estupro é um crime subnotificado. Ou seja, os números, calculados com base nos registros policiais, não são reais. Mesmo as vítimas adultas contribuem para o alto grau de subnotificação, por motivos como vergonha, culpa (irracional, mas causada pela cultura do estupro que insiste em culpabilizar a vítima), descrença de que vá dar em algo e medo. Medo do que vão pensar e medo de como familiares e amigos vão reagir.

Outro dado importante para entender a cultura do estupro é que a esmagadora maioria das vítimas é mulher – no estado do Rio de Janeiro, por exemplo, elas foram 84,7% do total das vítimas em 2017, de acordo com o Dossiê Mulher 2018 –, o que comprova a relação entre crimes sexuais e questões culturais, como machismo e misoginia. E aí, não bastasse todos esses desafios para lidar com a violência e a invasão sofrida, quando uma mulher consegue superar todas essas barreiras internas e usar sua voz para relatar que foi estuprada, encontra resistência externa e é nocauteada por uma série de questionamentos. Assim, muitas vítimas são desacreditadas e acabam voltando atrás nas suas denúncias.

É justamente esse o mote do livro Falsa acusação: Uma história verdadeira, dos jornalistas T. Christian Miller e Ken Armstrong, fruto de profunda e cuidadosa pesquisa jornalística investigativa que aborda a forma que os crimes sexuais contra mulheres são tratados pelas instituições policiais, com hostilidade e descrédito. Quando este livro chegou nas minhas mãos, para que eu fosse a responsável pela sua produção editorial, senti um misto de curiosidade receosa e satisfação. Embora seja uma temática densa e espinhosa, sei da importância de livros que toquem no assunto de maneira responsável. O fato de os autores serem homens, pessoas fora do seu lugar de fala, me gerou aquela dúvida: “Será que eles souberam falar sobre algo que não sofrem diretamente, ter a sensibilidade necessária?” Mas logo constatei que sim. A escrita é empática e cuidadosa; eles buscaram ser fiéis aos fatos e passar a verdade necessária, mas sem detalhar além da conta cenas que seriam muito fortes, sobretudo para mulheres que já tenham sofrido algum tipo de violência sexual – o que infelizmente é mais comum do que se possa imaginar.

Falsa acusação narra a trajetória de Marie, uma adolescente norte-americana de 18 anos que diz ter sido estuprada dentro do próprio apartamento, na cidade de Lynnwood, durante uma madrugada em 2008. Segundo ela conta para a polícia, o agressor era um homem branco de quase 30 anos que invadiu sua casa de madrugada, enquanto a garota dormia, e a violentou seguidamente, de maneira muito metódica e organizada. Marie se mostra tranquila quando os policiais e peritos chegam, uma reação vista como inapropriada para uma vítima de estupro, e logo tem sua vida colocada sob os holofotes da investigação. Ela mora sozinha e ninguém na vizinhança viu um homem diferente rondando o prédio. Como é possível? Ela faz parte de um programa do governo que ajuda jovens que cresceram sem um lar fixo. Qual é o histórico dela dentro do programa? Como era seu comportamento nos últimos anos? Ela tem duas mães adotivas que a criaram por último. O que elas têm a dizer sobre Marie? É uma garota confiável?

Quando o relato de Marie sobre o ocorrido começa a apresentar pequenas inconsistências, com detalhes novos surgindo a cada vez que ela é arguida e outros sumindo, os detetives responsáveis pelo caso – todos homens – desconfiam da veracidade da denúncia. E assim, com a impulsão final de um elemento surpresa, rapidamente a vítima se transforma em suspeita de ter feito uma falsa alegação de estupro – o que é considerado um crime.

Logo em seguida, a narrativa se desloca para 2011, em outra cidade dos Estados Unidos, e acompanhamos a investigação da detetive Stacy Galbraith de um caso de invasão a domicílio e violência sexual a uma mulher de cerca de 20 anos. No decorrer da investigação, Galbraith percebe pontos em comum com outro caso similar ocorrido em 2010 e se junta à detetive Edna Hendershot, responsável por esse inquérito policial, para unirem esforços e tentarem descobrir se são agressores diferentes ou se há um estuprador em série à solta. Impressionante a diferença que a presença feminina dentro da corporação policial faz. Essas duas detetives demonstram o primordial quando se deparam com uma denúncia de violência sexual a mulheres: empatia e confiança – não à toa, “Primeiramente, Acredite” [“Start By Believing”] é o slogan de uma campanha conduzida por um importante grupo de treinamento policial que se dedica a melhorar a qualidade da investigação de crimes sexuais, como descrito no livro.

À medida que as investigações avançam, as policiais esbarram em pistas que não dão em nada, mas começam a notar que o fio daquele novelo é muito maior do que imaginavam, e reúnem uma grande equipe para desvelar aquele mistério. O leitor testemunha o desenrolar das tramas, que correm em paralelo ao longo das páginas, intercalando-se entre o caso de Marie, as investigações das duas detetives e o retrato da mente de um criminoso assustadoramente frio e cuidadoso.

O ritmo da leitura se assemelha a um thriller policial, mas não dá para esquecer nem por um minuto que tudo ali é completamente verídico. E a dor dessas mulheres, vítimas de violências sexuais dentro das próprias casas, é pulsante. A realidade é mais sombria que a ficção. O livro mescla o tom de thriller com um ar de documentário, e achei isso uma escolha muito acertada dos autores, porque eles construíram uma história envolvente, mas toda permeada por elementos que atestam a veracidade de tudo aquilo. Há trechos de entrevistas com os policiais, as vítimas, familiares e outras pessoas envolvidas nos casos, e essas falas se alternam com a narrativa propriamente dita, criando uma dinâmica bem atrativa. É um enredo que se constrói em várias camadas, traçando uma linha do tempo que vai e volta e envolve personagens reais de vários núcleos, mas sempre de forma clara e coesa, sem gerar dúvidas no leitor. Outro acerto foi o cuidado nas descrições e na escolha de palavras – que, aliás, também tivemos na produção do livro em português, pensando em cada termo que poderíamos usar para fugir de cascas de banana e das reproduções de estereótipos ou preconceitos.

Mais uma coisa para a qual preciso chamar atenção é a construção historiográfica e documental que os autores fazem, resgatando casos de violência sexual que aconteceram no mundo nos últimos séculos, com o apoio de diversos dados. Os números são críticos e o preconceito com as mulheres ainda é intensamente cultivado, mas é um respiro notarmos que estamos progredindo.

Trabalhar na produção editorial de um livro é sempre um desafio gostoso e enriquecedor, que me faz mergulhar num novo (e às vezes muito diferente) universo por determinado período de tempo. Ser a responsável pela produção editorial desse livro, em especial, cuidando do processo de construção do texto em português, foi uma experiência intensa. Esse livro mexeu comigo sem eu nem perceber. É doloroso entrar em contato tão diretamente com esse tema. A violência sexual e de gênero é assustadora e deixa marcas permanentes em que as sofre. Ler sobre isso, no entanto, é importante e uma experiência fortalecedora. É conhecendo a face mais cruel do machismo e da misoginia que seremos capazes de combatê-los. Falsa acusação é uma leitura urgente, e eu realmente a indico para mulheres e homens. Como mulher, feminista e produtora editorial, fiquei feliz de trabalhar num projeto como esse. Mulheres, não nos calemos. Homens, assim como o Miller e o Armstrong, vocês são bem-vindos na caminhada!