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A revolução do lar – por Gloria Steinem

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Uma das mais importantes militantes feministas de todos os tempos explica por que Deixe a peteca cair, de Tiffany Dufu, é o manifesto essencial para os tempos atuais

Há duas maneiras de um sistema de poder permanecer no poder. A primeira é óbvia – leis desiguais, oportunidade desigual, renda muito desigual e violência ou a ameaça dela –, mas a segunda é mais interna e mais difícil de extirpar. É a ideia do que é normal; de como nos comportamos para conquistar igualdade e poder e em que estágio das nossas vidas essas normas começam a ser introduzidas. Como as mulheres são metade de qualquer população e, diferentemente de outros grupos secundários, não só convivem e trabalham com homens, mas dão à luz tanto meninos quanto meninas, há um perigo constante de que reconheçamos nossa humanidade compartilhada e nos rebelemos. É por isso que os papéis de gênero precisam começar tão cedo e ser tão enraizados. São as desigualdades com as quais crescemos, desde um cobertor rosa ou azul até a invenção de “masculino” e “feminino”. Vemos esses papéis à nossa volta, imaginamos que são inevitáveis e esperamos encontrar conformidade em nós mesmas.

Quando uma crença pune aquele que crê – por exemplo, quando mulheres acreditam que, para nós, “ter tudo” deve signicar “fazer tudo” –, ela se torna o que os psicólogos chamam de opressão internalizada.

Deixe a peteca cair, de Tiffany Dufu, é essencial porque aborda esse sistema mais profundo. Passamos os últimos 50 anos tentando democratizar o sistema externo – e avançamos o suciente para saber que podemos e devemos avançar muito mais –, mas não extirpamos a desigualdade que se inicia na família. Por exemplo, a lógica antiga diz que uma mulher passa cerca de um ano carregando e cuidando de um filho, então ela deve ser mais responsável por criar esse lho até a idade adulta. Mas a verdade é que os filhos têm dois pais; então, se a mãe passa um ano carregando e cuidando de um filho, por que o pai não é responsável por passar metade desse tempo criando esse filho? A lógica depende de quem a estabelece.

A boa notícia é que uma vez aberta essa porta da humanidade compartilhada, inúmeras novas possibilidades entram, não só para mulheres, mas também para homens e crianças.

Por exemplo, até os meus dez anos, mais ou menos, meu pai desempenhou um papel maior na minha criação do que minha mãe. Isso porque às vezes ela estava doente e incapacitada, e também porque ele era vendedor itinerante de antiguidades e trabalhava em casa, e podia me levar quando ia até as lojas que cavam à beira da estrada. Certamente não era por ele ser um pai convencional. Ele me deixava comer todo o sorvete que eu quisesse – ele mesmo pesava mais de 130 quilos – e me levava para assistir aos filmes de Hollywood da época. Ele nunca me mandou ir para a cama e me deixava dormir na frente da lareira ou perto da nossa cachorra quando ela estava amamentando uma ninhada. Ele mesmo costumava cair no sono no sofá enquanto lia para mim. Tudo que eu sabia era que ele amava minha companhia, cuidava de mim tão bem quanto ou até melhor do que cuidava de si mesmo e pedia e ouvia minhas opiniões. O que mais uma criança pode querer?

Passar tanto tempo com aquele homem gentil e amoroso me ensinou que havia homens gentis e amorosos no mundo. Quando adulta, nunca me atraí pelos distantes ou dominadores – ao contrário de amigas que eu via tentando reviver ou transformar a infância que tiveram com pais distantes, ausentes ou até cruéis. Sempre entendi que homens podiam criar os filhos tão bem quanto as mulheres, que podiam ser tão gentis quanto elas. Meu pai me deu um grande presente. Sou grata desde então.

O genial deste livro é que Tiffany trata dos caminhos internos para a igualdade. Ela questiona por que as mulheres – como esposas, lhas ou simplesmente cidadãs – são mais ou até mesmo as únicas responsáveis por cuidar do lar; das refeições; dos idosos ou doentes; da manutenção das redes sociais, escolares, de saúde e familiares; e por fazer praticamente tudo que não é remunerado. Embora hoje existam mais pais e parceiros participativos do que na época do meu pai, os Estados Unidos ainda estão muito atrás de outras democracias modernas no que diz respeito a políticas favoráveis à família. Fazemos o que vemos, não o que nos ensinam; ao contrário do que diz o ditado “Faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Ainda não exigimos mudanças suficientes, então um homem que tem filhos ainda é considerado mais responsável e empregável, enquanto uma mulher com filhos ainda é considerada menos responsável e empregável. Agora que as mulheres representam 50% da força de trabalho remunerada e 40% dos principais provedores da família – e os homens não estão nem perto de fazer 40% ou 50% do trabalho da casa –, talvez tenhamos dor e frustração suficientes para começar a revolução em casa.

Sei desde o nosso tempo juntas como organizadoras, trabalhando maneiras de dar mais poder a mulheres e meninas, que a Tiffany é a autora e ativista certa para este momento importante que vivemos.

Ela arrecadou dinheiro para a educação de meninas, administrou uma organização nacional de liderança feminina, foi consultora para melhores práticas de diversidade de empresas que constam na Fortune 500 e fez pressão por políticas favoráveis à família no local de trabalho. Mas talvez mais importante do que tudo isso seja o fato de ela ter percorrido, como mãe e esposa, uma jornada íntima e corajosa partindo de uma dinâmica familiar desigual para outra verdadeiramente democrática. No caminho, ela aprendeu lições valiosas que compartilha conosco – lições relacionadas ao local de trabalho e à mesa do jantar. Ela oferece uma sabedoria prática que pode ser passada de uma mulher à outra, da família dela à nossa.

Como fui testemunha e partilhei do seu trabalho, também sei que ela é bem-sucedida porque, como Eleanor Roosevelt, sempre “traça um círculo mais amplo”. Ela não só mostra que todos ganhamos quando nós, mulheres, participamos, contribuímos com nosso talento e somos mudadas pelo mundo fora do lar, mas também que todos nós ganharemos quando os homens participarem, contribuírem com seus talentos e forem mudados pelo mundo dentro do lar.

Para derrubar barreiras tanto internas quanto externas, é a liderança pelo exemplo que conta. Não importa quanto tempo cada uma de nós trabalhou para conquistar justiça – e o quanto sabemos que gênero, etnia, casta e classe social são categorias inventadas que podem ser dissolvidas –, precisamos é de exemplos de pessoas que vivam de maneira nova e igualitária. Tiffany é esse exemplo, e nos mostra muitos outros. Como o gênero costuma ser a divisão desigual que enxergamos primeiro – e que também normaliza todas as outras desigualdades baseadas no nascimento –, essa ideia é radical. Mas se aprendêssemos sobre os 90% da história da humanidade que costumamos descartar como “pré-histórica”, saberíamos que não é radical demais para ser verdade. Os homens compartilhavam a criação dos lhos em nosso passado migratório. Como a feminista e professora universitária Dorothy Dinnerstein e muitos outros estudiosos apontaram, os homens daquela época desenvolviam o círculo completo das qualidades humanas, sem necessidade de provar uma ideia artificial de “masculinidade”, assim como as mulheres desenvolviam esse círculo de igualdade fora do lar, sem um conceito de feminilidade.

Inspirada pelo poder do exemplo de Tiffany, vou contar uma história da minha vida que pode sugerir as novas possibilidades que ela vai apresentar para a sua.

Muito cedo, fui salva pelos escritos de várias mulheres, de Simone de Beauvoir a Andrea Dworkin e Florynce Kennedy. Elas me presentearam com o conhecimento de que eu não estava louca nem sozinha na minha esperança de que nós, mulheres, poderíamos estar seguras, usar nossos talentos e ser tratadas como seres humanos completos. Isso foi muito importante. Mas as três presumiam que nunca tinha havido uma sociedade em que as mulheres fossem realmente iguais. Foi por isso que elas não eliminaram completamente o receio que eu tinha de que estávamos trabalhando para um objetivo impossível.

Então, em 1977, fui à Conferência Nacional das Mulheres em Houston. Embora quase sem cobertura da mídia, o evento foi uma reunião de 2 mil representantes, eleitas em todos os estados e territórios, para votar em questões que também tinham sido propostas democraticamente. Como reuniu um movimento nacional diverso em torno de uma pauta compartilhada, provavelmente ainda é o evento feminista mais importante de todos os tempos. Enquanto ouvia as muitas representantes nativo-americanas e do Alasca, percebi que não sabia quase nada sobre a história da terra onde vivia. À medida que o resto de nós esperava por um futuro desconhecido e igual, essas ativistas citavam um passado conhecido e igual. Nas terras indígenas, as mulheres um dia decidiram sobre ter lhos ou não usando seus conhecimentos sobre ervas, abortivos e sobre o momento certo de usá-los; os homens estavam presentes no parto e participavam ativamente da criação dos filhos; as mulheres controlavam a agricultura e os homens caçavam, mas ambos eram igualmente necessários; anciãos e anciãs tomavam decisões e havia tantas imagens espirituais femininas quanto masculinas. Até hoje, muitas línguas nativas não têm pronomes de gênero, nada de “ele” e “ela”. As pessoas são pessoas. Que conceito!

Hoje, talvez estejamos reinventando o passado ao declarar nosso direito de controlar nossos corpos e nossos destinos – fora e dentro do lar. Precisamos de uma imagem de como viver essa revolução todos os dias. Precisamos de mulheres e homens que liderem pelo exemplo, como aquelas mulheres das terras indígenas zeram por mim há quase quatro décadas, e como a Tiffany faz pelos leitores de Deixe a peteca cair.

Quando eu era criança, minha mãe deixou a peteca cair porque não teve escolha, e meu pai assumiu por amor e necessidade. Agora, mulheres e homens podem mais uma vez compartilhar tudo da vida e explorar sua humanidade plena.

Texto publicado originalmente como prefácio do livro Deixe a peteca cair, de Tiffany Dufu (LeYa)

 


 

Gloria Steinem é jornalista, feminista, ativista social e política e se tornou internacionalmente conhecida como uma das líderes do movimento de emancipação feminina das décadas de 1960 e 1970.