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Uma reflexão sobre a busca desenfreada pelo prazer – por Sandra Edler

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Psicóloga e psicanalista Sandra Edler apresenta Tempos compulsivos, seu livro sobre a busca desenfreada pelo prazer que será tema de curso na Casa do Saber Rio entre 18 de janeiro e 1 de fevereiro

 

Em Tempos compulsivos, parti dos quadros que se tornaram muito frequentes no dia a dia de um consultório de psicanálise. Mas um questão maior se impôs tão logo me voltei aos primeiros depoimentos que recebi de voluntários: a reflexão sobre as atribulações de nossa vida cotidiana nos tempos compulsivos que hoje vivemos.

Como se dá a passagem do tempo? De que tempo falamos? Para além de um tempo cronológico, possível de ser mensurado, existe o tempo subjetivo, impalpável, mais perceptível a uns que a outros, como a areia de uma invisível ampulheta que teima em escoar, um pouquinho a cada dia, sinalizando uma perda pouco expressiva, talvez, mas presente a cada comemoração de aniversário ou passagem de ano. O tempo do sujeito está associado à finitude, ele terá um fim. Mas sobrevive o desejo de imortalidade. O homem ganhou tempo, obteve maior longevidade. E aspira ir ainda mais longe.

Na escuta clínica dos últimos anos, tornou-se muito nítida, no entanto, a queixa constante de que o tempo é curto, a vida não cabe nas 24 horas propostas pelo relógio. Listas intermináveis com itens importantes acabam por ser adiadas para o dia seguinte, com a constatação de que não houve tempo. Pessoas exaustas, sobrecarregadas, agendas lotadas de compromissos. Isso nos leva a interrogar como estamos vivendo e ocupando nossas horas, sobretudo na vida urbana, nos centros, nas grandes cidades. Houve o tempo da carroça, do trem, do carro e do avião. O homem era obediente ao ciclo da natureza, dormia ao escurecer e despertava à primeira claridade da manhã. Hoje subvertemos a noção de dia e noite e usamos, indistintamente, os dois espaços em nossas atividades e lazer. Além disso, tempo real e tempo virtual, presente e futuro, se confundem no mesmo dia. E tornou-se imperativo o conceito de tempo improdutivo.

Nos primeiros anos do século XXI, a tecnologia e a comunicação expandiram-se numa velocidade antes impensável. Na civilização pós-industrial em que vivemos, a velocidade própria à máquina invadiu nossas vidas, impondo extrema aceleração na maneira de viver e de pensar. A aceleração deixou-nos mais ativos, ágeis, abertos a inúmeras possibilidades, sim. Mas qualquer mudança signi cativa traz consequências externas e internas.

O sujeito e a cultura mantêm entre si permanente interação e, muito rapidamente, aparecem as formações sintomáticas decorrentes das mudanças próprias à época. Em Tempos compulsivos, procurei me debruçar sobre o sujeito contemporâneo, com suas dores e as eventuais relações entre essas dores e as diversas condições sociais do nosso momento. Os quadros compulsivos, de uma maneira geral, cresceram, assim como as depressões, o esvaziamento do sujeito quanto ao seu desejo, a perplexidade diante da vida, a ausência de expectativas, a desesperança e o tédio, como uma imersão num grande vazio. Aumentaram também os quadros extremos de violência do sujeito contra si próprio e contra o outro, o masoquismo e as expressões de destrutividade.

O livro aborda, inicialmente, os nossos tempos, situando configurações possíveis do mal-estar hoje. Em seguida, como esse mal-estar se manifesta no dia a dia do sujeito, as fontes do sofrimento humano, traduzindo também as novas modalidades sintomáticas em resposta às condições externas. Nesse momento, volto a atenção para a cultura em que vivemos. A que modicações nos referimos, como essas mudanças alteraram o ritmo da vida e acabaram por afetar o sujeito em sua subjetividade? Quais os imperativos decorrentes do capitalismo avançado, a força do mercado e as consequências da imersão prolongada numa cultura profundamente consumista? O consumismo participa da ampliação do narcisismo, não apenas trazendo o desabrochar de patologias específicas, mas também contribuindo para incentivar a infantilização. E adultos infantilizados agem como tiranos.

Em seguida, de forma mais detalhada, apresento como se estrutura o narcisismo desde Freud. E a exposição prossegue abordando o conceito de pulsão. Diferentemente do instinto, a pulsão é um conceito de profunda referência humana, que define a teoria e a prática psicanalíticas. Só mergulhando na dimensão das pulsões torna-se possível haver entendimento das condições em que as compulsões se apresentam e se fixam em cada sujeito. E as bases para seu tratamento.

A partir daí, os demais capítulos incluem depoimentos que possam ilustrar o aparecimento de diversas compulsões, bem como os diferentes caminhos escolhidos por cada sujeito que apresentou aqui sua narrativa. Trato os relatos como cartas, respondendo a um suposto leitor que me conta sua história, e comento cada um deles, não apenas visando a seu destinatário, mas procurando apreender a questão central neles contida. Abro também um espaço para abordar questões ligadas à adolescência, uma época singular da vida, em que con itos internos se avolumam e crescem as demandas sociais. Isso abre terreno a uma vulnerabilidade para a eclosão de quadros compulsivos, entre outros. E concluo analisando as condições em que o sujeito encontra meios para sua recuperação, deixando o automatismo no qual vivia como um refém e assumindo a responsabilidade da própria vida e do próprio desejo.

Tempos compulsivos reúne, em suma, as reflexões de uma psicanalista que se mantém ativa há décadas e prossegue, até o momento, sem interrupções. Parte da possibilidade de analisarmos nosso estilo de vida, demandas, respostas automáticas, tudo aquilo que incorporamos ao cotidiano: os imperativos e as injunções que o viver neste começo de milênio nos impuseram e – apesar do curto espaço de tempo – hipóteses possíveis, alternativas e abertura a novas interlocuções.

(Adaptação do texto de abertura do livro Tempos compulsivos, publicado pela Casa da Palavra, selo da LeYa Brasil.)

 


 

Sandra Edler é psicóloga e psicanalista, formada em psicologia pela PUC-Rio. Realizou mestrado e doutorado no Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ. Desde o fim dos anos 1980, atua como psicanalista em seu consultório particular. Durante o doutorado e nos anos seguintes, realizou ampla pesquisa sobre as depressões na contemporaneidade e publicou, em 2008, Luto e melancolia: À sombra do espetáculo. Ao longo dos últimos anos, tem se dedicado à articulação da psicanálise com a literatura – seus mais valiosos instrumentos para abordar os tempos compulsivos.