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Trecho de O que aprendi com Hamlet, de Leandro Karnal

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No novo livro de Leandro Karnal, atores-leitores são convidados a um passeio pela própria consciência: a jornada de aprender com quem mais tem a ensinar no teatro do mundo – o criador de Hamlet. O que aprendi com Hamlet, dessa forma, revela as lições deixadas pela principal peça de William Shakespeare numa combinação entre a experiência de um homem do século XVI e outro do século XXI. Tendo lido e relido a obra muitas vezes, Karnal refletiu sobre as lições que seu protagonista, o príncipe melancólico da Dinamarca, deixou e, mesmo nesta era de selfies felizes, continua a deixar. Com a colaboração de Valderez Carneiro da Silva, tradutora e especialista em Shakespeare, o autor cruza as passagens da peça como uma espécie de coaching – uma curadoria de vida.

Leia abaixo um trecho da introdução do livro.

 

Quem vem lá? O mundo de Shakespeare e o meu

 

O que aprendi com Hamlet? A pergunta é vasta para elaborar resposta curta e objetiva. Nenhum outro livro marcou tanto a minha vida e provocou tantas reflexões ao longo dos anos. A cada volta da minha biografia, houve um aceno do príncipe melancólico da Dinamarca. Por vezes, ele me dizia: “Eu não avisei?” Em outras, apenas sorria, com seu sarcasmo distante. Houve ocasiões em que ele mesmo parecia o fantasma do pai a dizer coisas estranhas, entrecortadas de efeitos. Nada foi inútil. Caminhei em paralelo a Hamlet.

Naturalmente, os diálogos do texto com a biografia de cada um constituem uma outra obra, igualmente ficcional. William Shakespeare estranharia muitas das conclusões que você encontrará nas páginas seguintes. Uma vez escrita, a literatura é reapropriada de forma dialética com a intenção original do autor. Existiu William Shakespeare, existe o Eu que lê e existe um terceiro, algo não previsto por ambos, um Nós, aquilo que resulta da interação aleatória do curioso triângulo formado pelo ato da leitura. Minha interpretação precisa dialogar com o que está no texto, e Hamlet precisa ouvir a mim também para sair do papel-palco. Assim, entre o gênio que escreve e o homem comum que percorre a peça (eu) surge o novo, o meu Hamlet a partir do gesto dialógico que não me pertence porque não sou autor e que não pertence ao inglês porque Shakespeare não me viu. Somos sempre três e faz parte do mistério do pensamento a interação dos polos em questão. Como previa Edmund Wilson, crítico norte-americano, nunca dois leitores leram o mesmo livro. O seu Hamlet nunca será o meu, e isso é absolutamente maravilhoso.

Alberto Manguel, escritor e ensaísta argentino, falou de três tipos de leitor: o viajante, a torre e a traça. Minha apropriação do Hamlet envolve todas as possibilidades.

Somos viajantes porque, como no modelo da Divina comédia, o príncipe dinamarquês nos leva de um ponto a outro e nos transforma ao longo da jornada. Exemplo claro é o salto dos atos iniciais para os trechos finais, o amadurecimento do protagonista e de nós mesmos. O Hamlet que volta da viagem para a Inglaterra é outro.

O segundo modelo nasce da expressão do século XIX de Charles Sainte-Beuve: torre de marfim, um certo isolamento reflexivo. Nada mais hamletiano do que a introspecção dos monólogos, especialmente do “ser ou não ser”. Não existe negatividade na expressão torre. Pelo contrário, existe apenas uma vontade de pensar melhor, o que implica pensar sozinho. É possível pensar em conjunto e o príncipe o faz com várias personagens. Há revelações de deserto, frases do olhar solitário, percepções únicas da honestidade de crítica de si e do mundo.

O terceiro modelo – a traça – é o leitor exageradamente diluído na obra, voraz mesmo, empanturrado, glutão de páginas, que se assume parte do texto como referente a si. É o caso grave de Madame Bovary ou do D. Quixote. Talvez seja o mais próximo do polo negativo. De alguma forma, Hamlet também o é e nos convida a sê-lo. Uma peça dentro da peça, uma loucura com livros, a definição estranha de literatura como “palavras, palavras, palavras” etc. Fácil viajar para a torre de marfim, difícil evitar o “leitor traça”, o buraco negro do qual não escapa nem a luz da poesia.

A leitura bem-feita de uma obra densa é um exercício psicanalítico. Ler é uma viagem ao redor de si mesmo, tangenciando e questionando convicções, com perspectiva e afastamento. Conheço-me conhecendo o príncipe. Meus espaços são violentados e forçados para novas fronteiras. A maturidade decorre do diálogo entre a vida e as leituras ao longo da vida. Nada existiria se Hamlet não tivesse lido muito e sido um consumidor de textos de teatro e filosofia. Nada seria válido se ele não tivesse o contato com o mundo real da corte. Da mesma forma, minha vida, meus livros e minha consciência viajam ao longo das páginas da tragédia. Sou traça-torre-viajante a cada fala que ecoa em mim. Nem Hamlet é meu ventríloquo, e eu não consigo ser boneco inorgânico. Estou longe da autonomia de Hamlet, nunca terei o talento de Shakespeare, e ambos estão mortos no passado até que minha mão de menor quilate abra o texto e inicie o desafio. Orgulho de um menor diante dos maiores, como uma rêmora grudada a um veloz e imenso tubarão cumprindo funções definidoras de ambos.

Eis a minha posição para falar do que aprendi com Hamlet. Aprendi o que ele falou e ensinou, aprendi o que ele nunca imaginou ter dito e aprendi a ser o diálogo do gênio do passado com o cotidiano tosco e linear do meu presente. Se eu fosse um moralista clássico teria dito que aprendi humildade diante da consciência de Hamlet. Como o meu príncipe é maior do que todo meu fogo-fátuo pretensioso, imagino não o antídoto do orgulho, mas por qual motivo incorporamos humildade ao discurso ou a qual objetivo serve a exibição das plumas do meu pavão narcísico. Observo o observador, como Hamlet me ensinou. Tento não me diluir no momento e criar um mínimo de afastamento para não virar um Cláudio ou um Polônio. Por incrível que pareça, por vezes tenho de ser ainda mais consciente para não virar um Hamlet mesmo, que é a parte mais complicada para aprender com o melancólico nobre: evitá-lo. Hamlet ensina sendo e ensina evitando ser.