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Trecho de “Posso pedir perdão, só não posso deixar de pecar”, de Fernanda Young

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O inédito Posso pedir perdão, só não posso deixar de pecar foi o primeiro livro escrito por Fernanda Young (1970-2019), aos 17 anos, e também o último a que ela se dedicaria, revendo os originais para a publicação mais de três décadas depois. Escrito no auge do despertar criativo da adolescência da autora, o romance exibe todos os sinais da grande artista que estava por vir – uma voz única, absolutamente original, libertária, criadora e desconcertante nas letras brasileiras.

Leia, abaixo, o primeiro capítulo da obra.

Quando eu era pequena, gostava de brincar de irmãs siamesas. Juntava-me a minha irmã e não havia terremoto que nos separasse. Para mim, nessa época, ser irmã siamesa chamava-se sinagoga. Deve ser por isso que atualmente penso em tornar-me judia, restaurar minha pureza e autenticar a patente do meu estilo.

Tenho lembranças funestas de minha criação. Lembro-me então de um fato que vem cobrar o silêncio de cada gole que dou no meu cálice de vinho.

Nesse dia, bebi um copo d’água com pressa e uma sofreguidão de quem quer ir brincar, e meu pai sentado ao outro extremo da mesa esperou paciente o término do líquido. Olhou-me com uma calma severa e me fez delicadamente tomar outro copo d’água, pausadamente e sem produzir nenhum barulho.

Sinto até hoje uma sensação de caixa d’água que me causa claustrofobia crônica.

***

A única condição para receber o Espírito Santo é ter sede. Uma vez eu estava a cavalo, quando chegamos a um rio . Eu queria que o cavalo tomasse água, mas ele não tinha sede, então eu puxava a cabeça dele, mas o cavalo ficava assim: (imita o cavalo imóvel ). Eu queria que ele bebesse, mas ele não bebia, pois não tinha sede.
(pausa)

Se nós não temos sede, não quer emos beber, porém se temos sede, estamos seguros da fonte de água viva. Glória a Deus Senhor!

Algumas pessoas creem que para recebermos o Espírito Santo temos que estar muito preparados, muito santificados. Se você pode santificar-se para todo mundo ver que você é digno de receber o Espírito Santo, então você não precisa do Espírito.

Justamente, nós precisamos do Espírito para podermos ser santos. Se uma pessoa pode santificar-se sem o Espírito Santo, ela não precisa do Espírito Santo.

Então não deixe o inimigo lhe dizer que você não é digno , que você não pode. (tosse)

O Senhor disse a todos: “Se você tem fé, se você tem sede, é suficiente, ele irá fazer a obra”.

Não tem que ser digno, porque ninguém é digno, só dependemos Dele, então a segunda palavra é: “Venha a mim e beba”, eu creio que esta frase “Venha a mim…” é muito import ante, muito interessante, não temos que ir a E le só pelas coisas que Ele nos dá, senão por Ele.

Ele é o batizante no Espírito Santo, temos que nos unir com o intuito de crer nele. Como Ele disse, rios de águas vivas fluirão, por isso creem nele.

***

Saímos da igreja e eu me sentia culpada. As palavras do pastor Ortiz me martelavam a mente, eu sentia como se sempre estivesse falando com Deus para ter os seus poderes, usando Jesus como uma cartola de mágico.

Meu pai ia na frente dando suas opiniões sobre o sermão, mamãe calada — demonstrava interesse como se Papo soubesse a grande verdade.

Eu não conseguia escutá-lo, estava perdida em minha autopiedade, pois queimaria nas trevas do inferno em breve. Sim, eu deveria pagar com a vida pelo desleixo que tive com o Senhor.

Meus pensamentos me puniam e eu me via cada vez mais infeliz e desgraçada, enquanto isso minha irmã caçula cantava baixo uma música do anjo que se chamava Solidão.

Meus pés ardiam, o suor descia em grossos filetes, tudo estava tão seco, a voz de Papo, a canção de Alice, o silêncio de mamãe, a minha dor.

Eu comecei a sentir uma tonteira e a ficar gelada, Deus estava me castigando.

Quando acordei, estava em minha cama. Demorei um pouco para me situar, olhei para Alice e ela dormia leve. Em sua boca entreaberta brilhava sua saliva infantil.

Levantei-me, mas logo retornei para a cama, eu não queria ser flagrada no corredor, eu não queria ser abordada pelo fato ocorrido, sentia fome, mas todos faziam sua sesta rotineira.

Demorei um pouco a voltar a dormir e sonhei com Deus, Jesus e o Espírito Santo. O primeiro era como o meu avô do Sul, pai de Papo, o segundo era como no quadro que tinha na sala de jantar e o terceiro era o carteiro com olhos de mel que vinha de quinze em quinze dias trazer o jornal da cidade mais próxima.

Acordei e me assustei com mamãe, que ao lado bordava algo a que não dei atenção. Arrependo-me de não ter dado valor a esse detalhe.

— Não precisa se preocupar, minha filha — odeio ser chamada assim —, pensamos em chamar o médico, mas quando olhei seu vestido — mostrou o vestido — e o vi sujo, bom, pensei: a dona menstruação visitou minha Nina. Não precisa se preocupar, aconteceu quase o mesmo comigo, o seu pai está orgulhoso e foi comprar um vestido de moça para você e depois passará na casa dos Mendes para comemorar — passando a mão em meus cabelos molhados. —Irei lhe preparar uma sopa, você deve estar com fome.

Disse-lhe que sim só para que me deixasse sozinha, e então chorei de vergonha e, depois desse dia, nunca mais brinquei com os filhos dos Mendes. Voltei a ter contato com eles somente quando aceitei desposar o mais velho, mas isso é uma história que ainda irei contar em outro momento, com detalhes.

A vergonha de ir à igreja ia crescendo a cada dia da semana, minha culpa se transformava em ódio por Deus, por seu Filho, pelo Espírito Santo e, principalmente, pelo pastor Ortiz, que almoçava lá em casa de vez em quando.

Ele era convidado por Papo que mandava nos arrumar como se fôssemos à missa. Tínhamos que beijar-lhe a mão. Alice ficava esbaforida com a presença do pastor, achava que ele era o Espírito Santo.

Quando eu lhe disse que o achava com cara de chupeta, correu para Papo e contou-lhe chorosa:

— Papo! Nina disse que o pastor tem cara de chupeta com face!

Atualmente sei o que eu queria dizer, ele parecia um testículo com formas moldáveis.

De sábado para domingo quase não dormi. Quando amanheceu, Al eufórica penteou o cabelo cantando a música do anjo Solidão: “Se esta rua, se esta rua…”.

***
… não nas dádivas, não nos presentes que Ele nos dá, mas sim nele. Muitas pessoas vêm a Ele pelos presentes e não por Ele.

Jesus não gosta disso, Ele diz: “Vocês me seguem pelos milagres, pelas curas e não por mim”. (silêncio)

Nós fazemos o mesmo que as criancinhas , você dá pão e doce, elas comem o doce e esquecem o pão, você dá mais doce e elas jogam o pão fora.

Se vocês continuam a dar doce, elas irão cear somente o doce. Jesus diz: “Vocês me seguem pelo doce e não por mim. Mas eu sou o pão da vida, e quem come da minha carne e bebe do meu sangue tem vida eterna”.

Glória a Deus Senhor!!! Que este pão de vida venha até nós com muito doce, mas a vida não está no doce, e sim no pão.

Temos que vir por Ele e não pelas dádivas, pelos presentes, pelos dons, mas por Ele, ele é o batizante.

Então vamos crer em Jesus, amar Jesus, vamos abraçar Jesus, enamorar Jesus. Eu não vou mais a Jesus para pedir, ainda que a Bíblia me permita, mas deixo para as crianças, que estão sempre com o Senhor.

Mas Ele sabe do que necessito, não tenha em mente o que vai receber, tenha Ele em mente.

Aleluia! (coro: Aleluia)

Diga a Jesus: eu te amo! Tu és precioso, tu és maravilhoso, Ele diz: “Eu sou o pão da vida e quem come da minha carne, este terá vida eterna”.

Aleluia! (coro: Aleluia)

Então vamos passar os domingos em sua casa, não comigo , mas com o Senhor. Estou introduzindo em vocês o batizante, eu não prego a cura divina, eu prego Jesus Cristo, Ele é o curador.

Nós o amamos e Ele fará o resto, temos que ser enamorados de Cristo, o Senhor.

***
Nessa época, mamãe esperava um bebê e Papo progredia como negociante. Tínhamos uma casa próspera, não nos faltavam bons alimentos. Al tinha oito anos e eu doze, apesar dos meus seios já se pronunciarem por baixo da roupa.

Eu sabia que algo tinha mudado, desde o domingo que desmaiei, não era pelo sangue que descera pelas minhas pernas, era algo mais forte, incontrolavelmente quente.

As semanas iam passando e a única coisa que eu pensava era na missa, eu sentia um ódio prazeroso, eu queria os presentes de Cristo, e a vergonha do meu interesse já tinha passado, Ele jamais saberia o meu verdadeiro desejo perante a Ele.