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Tudo sobre a Mulher-Maravilha

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Nossa assistente editorial conta a experiência de produzir o livro Mulher-Maravilha: Amazona, heroína, ícone e explorar a personagem

 

por Mariana Bard

Nasci em 1991, muitos e muitos anos depois do sucesso da Lynda Carter, e nunca fui geek. Ou seja, a Mulher-Maravilha não passava de uma mera conhecida para mim, daquelas que a gente acha legal, mas com quem tem familiaridade zero. Desde que vim trabalhar na produção editorial da LeYa, há dois anos, comecei a mergulhar nesse enorme (e fantástico) universo nerd e geek, me interessando, procurando informações e curtindo as coisas. Paralelamente, os últimos anos foram marcados pela eclosão (ou a volta com força total) do movimento feminista, e, como mulher, é quase impossível se manter alheia a isso. Então, no meio disso tudo, foi lançado Batman vs Superman: A origem da Justiça, e naquele momento nasceu meu ainda discreto encantamento pela Mulher-Maravilha.

Explorei mais o mundo geek e, em junho de 2017, veio a grande virada. O longa Mulher-Maravilha – possíveis críticas à parte – me arrepiou, me emocionou e me deixou apaixonada por aquela personagem que desbravou terras antes desconhecidas por personagens femininas e que mostrou a importância da representatividade. Mas, afinal, quem era essa personagem? Como ela surgiu? Quem a criou? Aquela versão cinematográfica era fiel à sua história nos quadrinhos? Com a admiração e a curiosidade devidamente despertas, foi para meu deleite que veio a oportunidade de ser a assistente editorial do livro Mulher-Maravilha: Amazona, heroína, ícone. Pude conhecer a fundo toda a história da Princesa Diana. E que história! Passando pelas mãos de vários roteiristas e ilustradores, com mudanças, continuações e descontinuações, é inegável que, apesar de haver contradições e momentos não tão maravilhosos assim, a personagem teve uma evolução muito legal, acompanhando aquela vivida pela sociedade do mundo real.

E como o mais interessante é compartilhar nossas descobertas com os outros, separo aqui algumas curiosidades sobre ela que me chamaram atenção.

A Mulher-Maravilha surgiu no mundo conservador da década de 1940, nos Estados Unidos, e era a única figura feminina no cenário majoritariamente masculino do mundo das histórias em quadrinhos. Ela foi criada justamente para preencher um vazio: pela primeira vez, uma personagem feminina seria a protagonista de uma tirinha de super-herói, ou seja, seria a super-heroína. Até então, as personagens femininas eram apenas as namoradas dos heróis ou personagens coadjuvantes. Uma ideia revolucionária numa época de donas de casa e de esposas do lar, a Mulher-Maravilha era uma pioneira, anos à frente de seu tempo.

Curiosamente, quem criou a personagem foi um homem: William Moulton Marston, nascido em 1893 nos Estados Unidos. Marston vivia com duas mulheres (na mesma casa, e ambas se aceitavam e se davam superbem!), e foram elas a inspiração para nossa icônica super-heroína. Ele tinha o pensamento incomum de que os homens deveriam ser governados pelas mulheres, e que apenas pela submissão a uma dominação amorosa poderiam ser verdadeiramente felizes. Afirmou que “o corpo da mulher contém duas vezes mais órgãos geradores de amor e mecanismos endócrinos do que o do homem. O que falta à mulher é o poder da dominação ou da autoassertividade para prosperar e fazer cumprir seus desejos amorosos”. Ou seja, ele queria dar poder às mulheres (uhul!).

O primeiro nome pensado para a personagem foi Suprema, a Mulher-Maravilha, mas depois ela acabou virando apenas Mulher-Maravilha.

Apesar da inovadora e progressista ideia de criar uma super-heroína e de acreditar no poder feminino, Marston era uma figura polêmica e tinha algumas contradições com relação ao que seria o papel de uma mulher. Durante sua fase como roteirista, apesar de criar uma personagem que contribuía para os avanços da mulher na sociedade, era muito comum que a Mulher-Maravilha ficasse presa ou acorrentada nas histórias, com os braços amarrados. Isso porque ele incluía elementos de bondage nos quadrinhos e acreditava que as mulheres sentiam prazer na submissão, em serem amarradas. Mas os temas de submissão e dominação foram sendo deixados de lado com o passar dos anos e com a chegada de outros roteiristas (ainda bem, né?).

Uma das versões iniciais do título explica a origem dos braceletes que Diana e as Amazonas usam: foi um decreto da deusa Afrodite que elas nunca removessem os braceletes, porque estes foram forjados por Hércules e outros homens na ocasião em que eles ludibriaram a Rainha Hipólita e acabaram derrotando as Amazonas, aprisionando-as e escravizando-as. Depois de muito pedir ajuda a Afrodite, a deusa deu força para que as Amazonas conseguissem destruir suas correntes e se libertassem de seus captores, mas elas deveriam usar sempre aqueles braceletes, como punição e uma forma de se lembrarem das consequências à submissão aos homens e de que deveriam se manter eternamente longe deles.

Após a morte de William Marston, os quadrinhos da Mulher-Maravilha foram comandados por vários novos roteiristas, e cada um deu sua contribuição e redirecionamento para as histórias e até para a origem da personagem. Por isso, cada época tem uma versão um pouco diferente para a forma como a Princesa Amazona saiu da Ilha Paraíso e foi parar no mundo dos homens, por exemplo.

A primeira edição da revista Ms. Magazine, de 1972, que era editada pela jornalista feminista Gloria Steinem, estampava na capa a Mulher-Maravilha sendo indicada para ser a nova presidente dos Estados Unidos. Era a explosão do movimento feminista no país norte-americano, e as mulheres começavam a cobrar mais engajamento nas histórias da personagem e menos reprodução de estereótipos machistas. Mais ou menos nessa época, a personagem vivia uma fase literalmente desempoderada, porque Diana tinha perdido seus poderes. Foi graças a reações feministas exigindo que a Mulher-Maravilha recuperasse seus poderes e seu traje, para colocá-la em pé de igualdade com o Homem de Aço, que começou a tomar forma a grande reformulação da Princesa Amazona.

Em 1987, após um período de poucas vendas e muitas críticas, pela primeira vez a história da Mulher-Maravilha foi reformulada, e o novo roteirista da série, George Pérez, pôde voltar à origem da personagem e recriá-la. A Ilha Paraíso foi rebatizada como Temiscira e os deuses e deusas se tornaram mais presentes na vida da Mulher-Maravilha. Uma coisa muito legal é que, na versão dele, Afrodite criou as Amazonas com a alma de mulheres mortas vítimas de agressões masculinas, sendo a Rainha Hipólita a primeira dessas vítimas. Assim, Afrodite soprou a vida nas formas de barro contendo essas almas e preparou o terreno para a posterior criação de Diana. A fase de Pérez voltou a dar mais voz a importantes questões femininas. (E a versão retratada no filme da Warner, estrelado pela Gal Gadot, tem muita inspiração nessa fase.)

Essas são só algumas curiosidades extraídas do livro Mulher-Maravilha: Amazona, heroína, ícone, que reúne informações diversas sobre a criação, a evolução e as mudanças da personagem ao longo das últimas décadas, reproduções de tirinhas que ajudam a compor essa narrativa e várias ilustrações e capas dos quadrinhos. Além de lermos, é possível visualizarmos também toda a transformação de Diana (que na década de 1990 sofreu com uma hipersexualização, por exemplo). Para quem curte quadrinhos e para quem, assim como eu, tornou-se fã da Mulher-Maravilha, garanto que essa é uma leitura imperdível.