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‘Um amor extraordinário’, por Sheila Salewski

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Viagem solitária, livro que narra a corajosa jornada de um dos maiores símbolos da liberdade de gênero, chega em nova edição que homenageia a força e a trajetória de seu autor, João W. Nery (1950-2018), que, em 1977, foi o primeiro trans-homem a realizar uma cirurgia de redesignação sexual no Brasil. A nova edição, revista, que já está em pré-venda, conta com apresentação inédita de Sheila Salewski, companheira de João W. Nery nos últimos 22 anos.

“Viagem solitária mostrou ao mundo que ser transgênero é tão normal quanto ser cisgênero, e mais: que o desejo de sermos quem realmente somos, livremente, é uma necessidade humana e não se pode negá-la a ninguém”, escreve Sheila. “João tinha uma facilidade incrível para se comunicar, e isso deu a ele e a outros transexuais a oportunidade de se conhecerem, de se apresentarem na mídia, irem a encontros acadêmicos e relatarem suas experiências a estudiosos e especialistas. João tinha um grande talento para abrir horizontes e, sobretudo, enternecer, mas sempre com uma postura confiante. Ele foi uma pessoa que espalhou amor e potência de vida, abraçando o mundo com muita coragem”, completa.

Leia a íntegra do texto de Sheila abaixo.

 

Um amor extraordinário

Todo ser humano tem um momento na vida em que se pergunta que legado deixará para sua descendência e para o mundo. Desde que nos conhecemos, em 1996, o objetivo de vida de João era claro: uma luta pela liberdade de gênero. E ele transformou sua trajetória em inspiração para muitos outros trans. A decisão de se tornar uma figura pública quando lançou sua autobiografia Viagem solitária, em 2011, não foi fácil. Naquele momento era difícil saber que consequências tudo aquilo teria, mas João não hesitou em se colocar à frente da causa. Intuiu que era o momento. Apesar de ter consultado previamente um advogado, sua família tinha algum receio do que pudesse acontecer com ele: sofrer agressões físicas, enfim, coisas perturbadoras e dolorosas. E sabíamos que aquele seria um caminho sem volta. “Vamos usar um boné, depois um chapéu.” E então sua marca passou a existir: o chapéu Panamá. Hoje, examino o meu tempo de convivência com João e sinto gratidão por ter participado de sua história. Porque foi uma história de luta que valeu a pena, que teve suas conquistas, alcançando muitos avanços e, sobretudo, permeada por muito amor e cumplicidade. Conheci João como uma pessoa que vivia à margem, com um círculo restrito de amigos, levando uma vida discreta, tímida e obscura. Despedi-me dele, em 2018, como um ídolo, uma liderança, um ícone da causa de liberdade de gênero. Um comunicador.

Lembro-me com perfeição do dia em que nos conhecemos. Tínhamos uma amiga em comum e estava na casa dela para fazer mosaicos. João apareceu com aquele sorriso fácil e solar. Começamos a conversar e ficamos, mutuamente, muito interessados pela conversa. De tudo um pouco, muita literatura – ele adorava Dostoiévski e eu, Shakespeare – e poesia – Florbela Espanca, Fernando Pessoa, Pablo Neruda… Foi um encontro inesperado, passamos a nos ver assiduamente e não nos separamos mais. Acredite, foi assim mesmo.

Quando o conheci não sabia de sua condição. Mas, logo depois do nosso primeiro encontro, a amiga que tínhamos em comum me contou toda a história. Não fiquei confusa, insegura ou com medo; não quis rejeitar ou ignorar meus sentimentos. Simplesmente aceitei e decidi mergulhar fundo. Hoje, olhando para trás, imagino que minha educação mais liberal, minha formação ligada às artes, a convivência com amigos mais revolucionários e o fato de eu, na época, já ser uma mulher madura, contribuíram para que não tivesse barreiras. A construção do nosso relacionamento foi natural, crescente. Na época em que começamos a namorar, meu pai já havia falecido e a primeira pessoa que soube de João na família foi minha irmã. João tinha uma maneira muito simples de se apresentar para as pessoas. Ele pedia para que elas lessem o primeiro livro dele, Erro de pessoa. Lembro-me de que minha irmã terminou de ler o livro muito rápido, em apenas uma noite. E, ao terminar a leitura, ligou para João e disse: “Li o seu livro. E eu queria dizer que gosto muito de você.” Minha mãe ficou sabendo anos mais tarde, um pouco antes da publicação de Viagem solitária, e sua reação foi natural. Os amigos em comum completam o círculo de amizades. Há aqueles que não sabiam de nada até a publicação do livro. Muitos foram uma grata surpresa, abraçando com entusiasmo sua história.

 

Passados 22 anos de convivência, poucos meses depois da perda de meu companheiro, quero deixar aqui registrado, nesta nova edição de sua autobiografia, que a vida de João mudou extraordinariamente depois da publicação deste livro, um desdobramento incrível de sua força represada por tanto tempo. Foi o momento de sair das sombras. Para além dos trinta anos de suas memórias, Viagem solitária mostrou ao mundo que ser transgênero é tão normal quanto ser cisgênero, e mais: que o desejo de sermos quem realmente somos, livremente, é uma necessidade humana e não se pode negá-la a ninguém. João tinha uma facilidade incrível para se comunicar, e isso deu a ele e a outros transexuais a oportunidade de se conhecerem, de se apresentarem na mídia, irem a encontros acadêmicos e relatarem suas experiências a estudiosos e especialistas. João tinha um grande talento para abrir horizontes e, sobretudo, enternecer, mas sempre com uma postura confiante. Ele foi uma pessoa que espalhou amor e potência de vida, abraçando o mundo com muita coragem. Mas a um custo pessoal alto, físico, emocional, social. João era teimoso e estava disposto a arriscar qualquer coisa para levar adiante seu projeto pessoal e coletivo.

A leitura de Viagem solitária foi inspiradora para muitos que se reconheceram nas vivências descritas por ele. João passou a ser procurado por outros transexuais que se reconheciam em sua trajetória e por muitos estudiosos. Era comum ele avaliar teses de mestrado, doutorado, ler artigos e matérias sobre o assunto e ser convidado para escrever sobre o tema em jornais, revistas e livros, e sempre encontrava tempo e disposição para lutar pela causa trans. As redes sociais foram muito importantes para o estabelecimento de um canal de comunicação nessa comunidade, de forma nacional e mesmo global.

Tornar-se uma pessoa pública foi transformador para uma pessoa que estava habituada a se conter de várias maneiras na vida. Quando vejo outros transexuais, penso sempre no tempo que essas pessoas levam para conseguir ultrapassar as inúmeras barreiras sociais que se apresentam a elas. Muitas vezes eles se sentem pequenos e fracos, desestimulados diante dessas barreiras, e não conseguem viver em sua plenitude. Muitos, inclusive e infelizmente, sofrem crises de pânico, se automutilam e até cometem suicídio.

A primeira entrevista de divulgação do Viagem solitária foi no programa de TV “De frente com Gabi”, veiculado em outubro de 2011 pela rede SBT. O livro seria lançado no mês seguinte, no início de novembro, na Livraria Argumento do Leblon, Rio de Janeiro. Por causa do programa e de alguns contatos para a preparação do livro, algumas pessoas transexuais estiveram presentes no lançamento também. Foi uma noite alegre, com muita gente. Uma celebração da nova fase da vida de João que aquele momento representava. Seu livro anterior, Erro de pessoa, lançado em 1984, não teve noite de autógrafos. Aqueles eram outros tempos, e na época um transexual vivia praticamente na clandestinidade. Mas, naquela noite de novembro em 2011, saímos felizes da livraria, andando pela rua, eu, ele e o filho, para pegar o carro. Foi uma das noites mais plenas de nossas vidas.

A partir do lançamento de Viagem solitária, surgiram outros convites para se apresentar em programas de TV, e depois vieram as palestras, mesas redondas e conferências durante o ano seguinte (2012) para falar sobre identidade de gênero, direitos da diversidade sexual, educação sexual, transexualidade, entre outros assuntos. Em 2013, a agenda de João começou a ficar lotada, era praticamente um evento por mês, ou mais. Nesse ano também ele participou ativamente na elaboração do projeto de lei 5002/13, Lei de Identidade de Gênero João W. Nery, proposto pelos deputados federais Jean Wyllys e Erika Kokay, que daria um impulso na discussão sobre uma legislação de proteção aos transexuais. Embora esteja arquivado no momento, esse projeto certamente foi fundamental para importantes desdobramentos na área jurídica. Uma legislação de proteção às identidades de gênero já deveria estar em vigor no Brasil. Em maio de 2012, a Argentina criou a Lei de Identidade de Gênero que autoriza a mudança de nome e gênero sem necessidade de procedimentos cirúrgicos, hormonais ou jurídicos. Não termos uma lei como essa aqui, sem dúvida, é andar um passo para trás. O Brasil tem avançado em várias pautas dos direitos humanos (às vezes, tropegamente), e falta aos legisladores reconhecer esse direito com uma legislação clara e definitiva.

 

 

Os eventos para o público geral e acadêmico, com discussão de gênero e sexualidades, ganharam terreno, um grande alcance junto a formadores de opinião e reconhecidos pesquisadores. João tornou-se referência nacional como ativista de direitos humanos, por isso sua atividade intensa. Mostrou-se incansável nessa tarefa de levar a discussão a qualquer lugar. Em 2018, um mês após seu falecimento, recebeu o prêmio Direitos Humanos, concedido pelo Ministério dos Direitos Humanos no Brasil (“pelos relevantes serviços na promoção dos direitos humanos no Brasil”).

Nesse breve período de sete anos, desde a publicação do livro Viagem solitária até seu falecimento, várias coisas aconteceram para mudar o conceito da transexualidade, no Brasil e no mundo. A comunidade acadêmica começou a se habituar à presença de transexuais e travestis nos eventos sobre gênero e sexualidades. As universidades começaram a abrir caminho para a diversidade sexual. E os obstáculos quase intransponíveis para essa população – a proibição do uso do nome com o qual a pessoa se identifica, por exemplo – começaram, muito gradativamente, a diminuir e quebrar resistências.

Foram anos de muitos esforços para alcançar uma maior compreensão de que o gênero pode se apresentar de outras formas além do binarismo estabelecido como padrão para a existência humana. Talvez os desdobramentos futuros do que está ocorrendo hoje nos mostre que uma sociedade mais consciente e diversa seja nosso destino. É muito importante o esforço de cada um de nós para alcançar esse objetivo, não só no respeito ao próximo, mas ao planeta, compreendendo que a rede que nos mantém vai muito além de alguns valores que pensamos serem absolutos.

Eu posso dizer que as situações de constrangimento pelas quais João passava na vida também repercutiram em mim. Lembro-me, particularmente, de episódios de mal-entendidos e grosseria causados pela condição transexual dele. O risco sempre presente era da possibilidade de causar mal-estares jurídicos e legais. Testemunhei também sua angústia em não poder ser quem ele realmente era e se expressar da maneira que queria. João teve de viver nas sombras durante muito tempo e, apesar dos riscos reais que corria, aos poucos, fomos entendendo que a visibilidade era a sua maior defesa, o melhor instrumento para desmistificar o que se quer “esconder, apagar, matar, anular”, tenha o nome que tiver.

O mundo, neste século XXI, começara realmente a se aprofundar no tema. Nos últimos dez anos se intensificaram mudanças importantes no enfoque às questões de gênero e sexualidade. A quantidade de produção acadêmica, em escala mundial, demonstra isso. Alcançamos um pouco mais de liberdade e respeito à individualidade na sociedade ocidental contemporânea. Mais fóruns para a discussão e aceitação se abriram. Surgiu uma maior consciência sobre o conceito de gênero e sexualidades na sociedade. No entanto, forças retrógradas, contra esses avanços e que insistem em impedir o livre pensamento e reconhecimento das individualidades, continuam a existir e não nos deixam esquecer que, infelizmente, o caminho sempre será de altos e baixos, mas é o amor e não o ódio que deve prevalecer. Devemos nos esforçar para isso. Aquilo a que João dedicou sua vida. E, mesmo tendo sofrido tudo o que sofreu, ainda assim ele me dizia: “Todo dia eu olho pela janela e agradeço.”

Quando João foi internado pela última vez, naquele sábado, dia 6 de outubro, eu acreditava que ele sairia do hospital vivo. Nada me dizia o contrário, mas vinte dias depois ele se foi e nem pude me despedir. O meu companheiro foi um ser extraordinário, e o registro de sua história seguirá como combustível para impulsionar a luta que tantos milhares de transexuais têm pela frente em busca de reconhecimento. Com todo o meu amor e respeito.

Sheila Salewski, identificada no livro Viagem solitária como Sandra, foi companheira de João W. Nery nos últimos 22 anos