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Winston Churchill, primeiro-ministro – por Martin Gilbert

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Trecho de obra escrita por biógrafo oficial narra os momentos retratados no filme O destino de uma nação, que estreia nos cinemas

 

Churchill: Uma vida, obra em dois volumes escrita por seu biógrafo oficial – o historiador mundialmente consagrado Martin Gilbert –, é o resultado de 25 anos de pesquisa incansável que revela em detalhes todos os fatos da vida pública ao mesmo tempo em que descortina a intimidade de um homem em busca da imortalidade. Nas palavras de Gilbert: “Seu melhor momento foi a liderança da Grã-Bretanha quando ela estava mais isolada, mais ameaçada e mais fraca, quando sua coragem, determinação e fé na democracia estavam em uníssono com a nação.” E isso aconteceu assim que Churchill assumiu como primeiro-ministro, em maio de 1940, em plena Segunda Guerra Mundial – momentos narrados no filme O destino de uma nação, que chega esta semana aos cinemas brasileiros, e também no trecho abaixo, que selecionamos do segundo volume de Churchill: Uma vida.

Ao anoitecer de 10 de maio de 1940, Churchill era primeiro-ministro. Mais tarde, escreveu que, quando se deitou nessa noite, estava consciente de “uma profunda sensação de alívio”. Ele continuou: “Finalmente tinha autoridade para dar diretivas sem restrições. Eu me senti caminhando junto com o destino, como se toda a minha vida passada tivesse sido apenas uma preparação para essa hora e essa prova.” Contudo, ainda havia alguma oposição conservadora por ele ter sido nomeado primeiro-ministro; em 11 de maio, lorde Davidson escreveu a Stanley Baldwin: “Os tories não confiam em Winston. Depois de passado o primeiro impacto da guerra, pode bem acontecer que surja um governo mais sólido.”

Família, amigos e um vasto círculo de apoiadores ficaram felizes com a nomeação de Churchill para primeiro-ministro. “Toda a vida eu soube que você seria primeiro-ministro, desde os dias de Hansom Cab”, escreveu Pamela Lytton, sua namorada de quarenta anos antes. “Agora que é, as notícias põem meu coração a bater como uma súbita surpresa. Sua tarefa é enorme.” Seu filho Randolph enviou uma carta de encorajamento filial: “Finalmente o pai tem o poder e a autoridade que facções eleitorais lhe negaram, e à Inglaterra, durante nove longos anos! Não tenho palavras para expressar como estou orgulhoso. Só espero que não seja tarde demais. É certamente um difícil momento para iniciar funções. Envio-lhe meus mais sinceros desejos de boa sorte nos angustiados dias que se aproximam.”

Desde a tomada de posse de Churchill como primeiro-ministro, perigos diários ameaçavam a sobrevivência da Grã-Bretanha. Com o intuito de ajudar a corrigir as deficiências nos aviões, Churchill nomeou lorde Beaverbrook ministro da Produção de Aviões; Eden foi para o Ministério da Guerra e Sinclair, para o Ministério da Aviação. Eram amigos em quem ele sabia que podia confiar para executar suas tarefas sem a necessidade de constantes sobressaltos. Sua oferta do Ministério da Agricultura a Lloyd George foi recusada; Lloyd George já não confiava na vitória. Attlee tornou-se o representante de Churchill no Gabinete de Guerra. Ernest Bevin tornou-se ministro do Trabalho e Serviço Nacional e Herbert Morrison, ministro dos Abastecimentos. Churchill confiava nesses trabalhistas para sustentar o enorme esforço necessário para incrementar a produção de guerra e manter a unidade da nação.

Na tarde de 13 de maio, Churchill convocou todos os seus ministros ao Almirantado e disse-lhes: “Nada mais ofereço além de sangue, trabalho árduo, lágrimas e suor.” Ele repetiu essas palavras poucas horas depois, na Câmara dos Comuns, quando declarou:

Perguntam-nos qual é a nossa política. Eu respondo. Fazer a guerra, por mar, terra e ar, com toda a nossa energia e com todas as forças que Deus nos der; fazer a guerra contra uma monstruosa tirania, nunca ultrapassada no negro e lamentável catálogo dos crimes humanos. Essa é a nossa política.

Perguntam-nos qual é o nosso objetivo. Posso responder com uma só palavra: vitória. Vitória a todo o custo, vitória a despeito do terror, vitória por mais longo e difícil que seja o caminho, pois sem vitória não há sobrevivência, não há sobrevivência para o império britânico, não há sobrevivência para tudo o que o império britânico significou, não há sobrevivência para o desejo e o impulso das eras, para que a humanidade vá em frente a caminho de seus objetivos.

Eu me dedicarei à minha tarefa com atenção e esperança. Tenho certeza de que nossa causa não fracassará. Neste momento, sinto-me autorizado a exigir a ajuda de todos e digo-lhes: “Venham, vamos juntos em frente, com nossa unida firmeza.”

 

Ao voltar à Downing Street, Churchill soube que os exércitos de Hitler avançavam cada vez mais pelo interior da Holanda, da Bélgica e da França. Ele pretendia tomar uma iniciativa imediata, bombardeando a Alemanha, mas a negligência na preparação do poderio aéreo britânico antes da guerra foi uma das razões que levaram o Gabinete de Guerra a decidir, em 13 de maio, que tal não poderia ser feito; lorde Halifax colocou a questão com aspereza, considerando a Inglaterra “a nação em posição mais fraca”. Dois dias depois, com a Itália ainda neutra, Halifax sugeriu que “pode ser recompensador” enviar uma mensagem pessoal a Mussolini.

Churchill concordou. Na mensagem, que foi enviada no dia seguinte, perguntou: “Será tarde demais para evitar que escorra um rio de sangue entre os povos inglês e italiano?” Qualquer que fosse o decurso da guerra na França, “a Inglaterra irá até o fim, mesmo que sozinha, como já fizemos antes, e creio com alguma segurança que seremos cada vez mais ajudados pelos Estados Unidos da América e certamente por todas as Américas.” Esse também foi o tema do telegrama que enviou a Roosevelt nesse dia, 15 de maio, com palavras de mau presságio: “Se necessário, continuaremos a guerra sozinhos. Não temos medo disso. Porém, confio em que compreenderá, sr. presidente, que a voz e a força dos Estados Unidos podem não ter préstimo se forem adiadas demais. Poderemos ter, estabelecida com surpreendente rapidez, uma Europa nazificada completamente subjugada, e o peso pode ser maior do que podemos suportar.”

Na manhã de 16 de maio, à medida que as tropas alemãs atravessavam a linha Maginot, chegaram a Londres notícias de uma iminente retirada francesa, o que exporia a perigo a Força Expedicionária Britânica. Determinado a empregar toda a influência pessoal que pudesse para evitar uma retirada, Churchill voou para Paris, onde encontrou o alto comando francês sem qualquer plano de contra-ataque. Nessa noite, enviou um telegrama ao Gabinete de Guerra em Londres para perguntar se o pedido francês por mais caças e bombardeiros poderia ser satisfeito: “Não seria bom historicamente se o pedido fosse negado, daí resultando sua ruína.” O Gabinete de Guerra concordou.

Na manhã de 17 de maio, Churchill regressou a Londres. “Winston está deprimido”, disse seu secretário privado, Jock Colville. “Ele diz que os franceses estão sendo derrotados por completo, como aconteceu aos poloneses, e que nossas forças na Bélgica têm de ser retiradas de modo a manter contato com os franceses.” No Gabinete de Guerra, em 18 de maio, Neville Chamberlain, que Churchill tinha indicado para lorde-presidente do Conselho de Guerra, sugeriu que o próprio Churchill falasse pelo rádio à na- ção naquela noite, para indicar “que enfrentamos um dilema e não poderão ser permitidas quaisquer considerações pessoais para nos mantermos fiéis às medidas necessárias à vitória”.

Churchill aceitou a sugestão de Chamberlain e fez sua primeira emissão radiofônica como primeiro-ministro desde que tinha ocupado o cargo, nove dias antes.

“Não é esse o momento para que todos façam os maiores esforços possíveis?”, perguntou. Ele continuou, falando dos “grupos de países despedaçados e raças coagidas — tchecos, poloneses, noruegueses, dinamarqueses, holandeses, belgas — sobre quem descerá uma longa noite de barbarismo sem que nem mesmo uma estrela de esperança a quebre, a não ser que vençamos, como deveremos vencer e como vamos vencer”.

A nação sentiu-se inspirada com o discurso de Churchill. “Ouvi sua conhecida voz na noite passada e gostaria de ter-lhe apertado a mão por um breve momento e dizer-lhe, do fundo do meu coração, que lhe desejo tudo o que é bom — saúde, capacidade mental e força — para carregar o insuportável fardo que pesa em seus ombros”, escreveu-lhe Baldwin de sua casa em Worcestershire. O capitão Berkeley, que dez dias antes tinha escrito em seu diário que “Winston não tem discernimento”, escreveu em 20 de maio: “O primeiro-ministro fez uma magnífica emissão radiofônica na noite passada. Está sendo ‘sublime’ em todos os níveis, e, depois de ter evitado por pouco um sério colapso em Paris quatro dias atrás, tem galvanizado todos aqui.”

(Trecho do quinto capítulo do segundo volume de Churchill: Uma vida, “Primeiro-ministro”, publicado pela Casa da Palavra, selo da LeYa Brasil.)

 


 

Sir Martin Gilbert foi um dos principais historiadores de sua geração. Membro honorário do Merton College, em Oxford, por trinta anos, ele foi o biógrafo oficial de Churchill e autor de 80 livros, entre os quais A Primeira Guerra Mundial e A Segunda Guerra Mundial (publicados no Brasil pela Casa da Palavra), A Comprehensive History of Israel e os três volumes de A History of the Twentieth Century. Faleceu em fevereiro de 2015.